Pequenos Clássicos Modernos

Categories Pequenos Clássicos Modernos, Resenhas

Guizado
Brazilian/Jazz/Experimental
http://www.myspace.com/guizado

Por: Cleber Facchi

Se existe um trabalho que pode facilmente angariar o rótulo de “genial” na música brasileira contemporânea, este é Punx (2008), disco de estreia do músico paulistano Guilherme Mendonça, que aqui se apresenta como Guizado. O experimentalismo, a música eletrônica, o jazz e até o rock se encontram nessa miscelânea de onze faixas, em que o orgânico se dissolve em meio ao sintético no anseio de criar um som puramente urbano, uma quase trilha sonora para o cenário cinza de São Paulo ou qualquer outra metrópole.

Não espere por vocais ao se aventurar por essa pequena obra prima do experimentalismo brasileiro. Aqui os únicos diálogos encontrados são fomentados através do debate entre o trompete magistral de Mendonça e as incontáveis modulações eletrônicas, batidas despojadas de bateria, um baixo suingado e guitarras, que quando existentes se desdobram em meio a camadas ruidosas e assertivas texturas instrumentais. Há também espaço para um coro de teclados, todos confortavelmente instalados dentro do distinto universo do álbum.

Se o som instrumental, beirando o excêntrico é o ponto chave de todo o trabalho, este não é necessariamente o mecanismo único do álbum. Em meio às inúmeras e inventivas sonoridades de Punx, surgem a todo o momento elementos menos abstratos e mais “fáceis” de serem compreendidos. Entre os momentos acessíveis do álbum está a faixa Órbitas, que mesmo com seus incontáveis e esporádicos bips acaba se organizando em uma canção instrumental levemente dançante e menos complexa que as demais canções do álbum.

Contudo é quando Guizado funde seu trompete (no melhor estilo Miles Davis da fase Bitches Brew) com uma tapeçaria de sons eletrônicos, transitando pelo dubstep e o downtempo, que o disco se entrega de maneira integral. Em meio a esse mar de experimentações surgem verdadeiros achados como a preciosa Maya, faixa que é capaz de definir todo o álbum, por meio de sua inspirada musicalidade. Outra que também surpreende é Der Golem, em que o embate entre as aplicações eletrônicas e o trompete abafado do músico.

A genialidade do álbum, entretanto, não se resume apenas a presença única de Guilherme Mendonça, mas sim ao conjunto de amigos, que junto dele constroem todo o panorama sonoro do registro. A bateria fica dividida entre Maurício Takara (Hurtmold) e Curumin, enquanto Régis Damasceno e Rian Batista, ambos do Cidadão Instigado, assumem respectivamente a guitarra e o baixo do álbum, abrindo espaço para que assim Mendonça brinque com sintetizadores analógicos, samplers diversos, videogames e, claro, seu trompete.

Lançado através dos selos Dignóis (de Lucas Santtana) e Urban Jungle, Punx foi eleito como um dos melhores discos de 2008 através de diversas publicações, como a revista Rolling Stone, e sites como a Trama Virtual e Scream Yell, sempre em posições de destaque. O músico voltaria dois anos mais tarde com um segundo disco, porém é através dessa pequena obra prima da música contemporânea, que o Guizado atinge o máximo de sua inspiração.

Punx (2008)

Nota: 9.5
Para quem gosta de: Maquinado, Lucas Santtana e Cidadão Instigado
Ouça: Maya

Veja também:

Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *