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Pequenos Clássicos Modernos

Apanhador Só
Brazilian/Indie/Alternative
http://www.myspace.com/apanhador
http://www.apanhadorso.com

Por: Cleber Facchi

Durante parte da década de 2000 um bom número de artistas que constituem o chamado “rock gaúcho” acabaram por construir um cenário deveras enfadonho e excessivamente caricato, como se tudo que de lá viesse fosse fruto de aspirações voltadas ao britpop da década de 90, num exercício que embora contabilizasse um amplo numero de fãs, nada inovava. Claro que nomes como Bidê ou Balde, Walverdes e Superguidis se desligavam disso, mas eram uma minoria. O novo custou a chegar, mas quando veio trouxer contornos memoráveis e a estreia do Apanhador Só é apenas testemunho disso.

Soando como uma completa divergência de tudo que cercou o rock sulista do novo século, o quarteto de Porto Alegre envergava por uma sonoridade caprichada e letras tomadas por uma poesia ímpar, abrindo as portas para que o lirismo encontrasse sua morada. Filhos distantes do seguimento dado pelo Los Hermanos durante a primeira metade da década, a banda composta por Alexandre Kumpinski, Felipe Zancanaro, Fernão Agra e Martin Estevez trazia os ventos da inovação não apenas para a região de origem, mas mas deixando que tais sopros se estendessem a todo solo nacional.

Embora se cerquem dentro de uma linguagem totalmente própria (principalmente dentro das letras das canções), instrumentalmente o grupo toma rumo dentro do mesmo cruzamento entre o rock e a MPB, esticando suas influências inclusive a tocar sonoridades externas, como ocorre com o tango em Balão-de-Vira-Mundo e Origames Over, além de certo toque de regionalismo em Vila do Meio-Dia.

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Entre acontecimentos mundanos e apaixonadas composições de amor, os gaúchos fazem de suas poesias uma séria de convidativas histórias, onde Maria Augusta, Zé, O Rei, Jesus, o Coveiro e o Padeiro tomam suas posições como personagens em maio a delicados arranjos instrumentais. As faixas dividem-se em concentrados de nostalgia (Vila do Meio-Dia), melancolia (E se Não Der) e reflexões tocadas de leve pelo fantástico (Um Rei e o Zé). Mas é ao falar de amor que Kumpinski, o principal letrista, se entrega.

O resultado dessa vertente sentimental e romântica se dissolve em suavidades como as encontradas em Bem Me Leve (com o compositor brincando com o eu-lírico feminino), Peixeiro (metaforizando a relação em uma garrafa de vinho que se transforma em vinagre) e sobretudo em Nescafé, um conjunto de trechos dicotômicos, onde os versos, acompanhados por um arranjo bem conduzido dão vida a um relacionamento repleto de opostos. A faixa, que fraciona seus versos entre Kumpinski, Ian Ramil (filho de Vitor Ramil), Diego Grando e Marcelo Souto, acaba por revelar toda a vivacidade da banda em suas composições, tornando memoráveis versos como “Almoço minha angústia/ e tu ri com a cara na TV/ eu tomo um conhaque/ e tu fala em ter bebê”.

Com produção do músico Marcelo Fruet e construído ao longo de dois anos (entre “a primavera de 2008 e o verão de 2010”), o debut da Apanhador Só se converte em um conjunto memorável de sons e poesias, que embora feito por jovens na casa dos 20 anos se orienta de forma madura e referencial. O álbum contabiliza ainda um cuidadoso encarte (autoria de Rafael Rocha), que se transforma em fichas repletas de ilustrações, tomando toda a parte gráfica do trabalho e dando ao disco um aspecto de envelhecido, uma pequena raridade que foi perdida e felizmente encontrada.

Apanhador Só (2010)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Pullovers, Bazar Pamplona e Banda Gentileza
Ouça: Bem-me-leve


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