“Por isso eu acredito nos Riffs”

Por: Cleber Facchi

Fale tudo que quiser de mim
faça de conta que eu sou
uma imensa lata de lixo verbal
um objeto onde você possa despejar
toda a malevolosidade
não sei se existe essa palavra
já procurei no dicionário
pra tu ver que eu
não sou um cara ruim...

Se ao longo de 2006 você estivesse de alguma forma atento ao que surgia como novidade através das principais publicações nacionais, sejam elas virtuais ou impressas, cedo ou tarde o pequeno agrupado de versos acima expostos ecoariam em seus ouvidos. Involuntariamente, o mesmo jogo de palavras seriam ecoados a plenos pulmões por você, trançando neologismos, autodefesas e um conjunto de palavras perfeitamente moldados para o tema de um pós-relacionamento. A sequência de versos em questão dariam vida ao que mais tarde seria a porta de entrada de um quarteto gaúcho como um dos grandes símbolos do cenário alternativo nacional, que a partir daquele momento tomava contornos bem delimitados. Nascia pela segunda vez a Superguidis.

O primeiro “nascimento” da banda viria anos antes, longe dos incontáveis olhares do público ou mesmo das publicações que posteriormente os apresentariam, apenas convergindo a aproximação de quatro garotos vindos de distintos locais da capital gaúcha Porto Alegre. Andrio Maquenzi, Lucas Pocamacha, Diogo Macueidi e Marco Pecker seriam os quatro responsáveis por em um futuro próximo colarem hits pegajosos nas mentes de milhares de ouvintes por todo o país (quem sabe até nos países vizinhos), entretanto, em seus primeiros encontros o foco no trabalho da banda era completamente outro. Quando o quarteto iniciou suas atividades em meados de 2002 eram as preferências aos sons de Nirvana e Pearl Jam que ecoavam da instrumentação proposta pelo quarteto, na época um embrião denominado Dissidentes.

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Foi só quando os shows passaram a crescer, assim como alguns EPs caseiros chamaram a atenção do público e de alguns pequenos selos que o Superguidis nasceria de fato, pela primeira vez. Sem frescuras e apenas buscando por um novo nome que soasse de forma agradável veio a união das palavras “super”, algo que enaltecia o caráter da banda, e uma antiga gíria gaúcha para tênis, o “guidis”. Além do novo nome viriam as novas sonoridades que permeariam o trabalho da banda, deixando as predisposições ao grunge em segundo plano, e partindo de encontro ao que fora proclamado por outros grupos do mesmo período, entre eles Pavement, Yo La Tengo e principalmente Sonic Youth, referência que estaria presente em cada minúscula canção do grupo.

De posse de um novo nome e uma sonoridade melhor resolvida, só faltava ao quarteto – dono de um vasto apanhado de singles e alguns EPs – ter seu primeiro e definitivo álbum lançado. Veio em assim em 2006 a homônima estreia da banda, registro entregue logo no inaugurar do novo ano, em princípios de janeiro, inicialmente sem muito destaque ou alarde. Gravado meses antes sob os comandos da banda e de Rafael Arce, o álbum contou com o apoio do pequeno selo fonográfico Senhor F, que acompanharia o quarteto até seu último e derradeiro trabalho. Embora fossem apenas mais um grupo de jovens lançando sua estreia naquele momento – assim como seria com Moptop, Zefirina Bomba e Supercords -, o disco lentamente foi assumindo territórios ao longo do ano, ganhando destaque através das primeiras publicações da revista Rolling Stone em solo nacional, na extinta revista Bizz ou mesmo pela páginas eletrônicas da Trama Virtual.

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Pode ser que isso soe pretensioso, mas o Superguidis estava fadado ao sucesso naquele momento. A coleção de 12 faixas extremamente fáceis e radiofônicas, regadas com boas doses de guitarras e muito bom humor serviram como uma sólida e edificante escada para a banda. Se não fosse pela sonoridade explosiva de Malevolosidade a boa repercussão viria pelo “existencialismo” de O Véio Máximo, trazendo a temática do envelhecimento de forma divertida, afinal, “Por que cargas d’água os cabelos que cresciam na cabeça agora crescem na orelha?”. Se essa ainda não fosse a responsável por trazer resultados ao trabalho da banda, então o romantismo tardio de O Banana talvez desse conta do recado, ou quem sabe O Manual de Instruções ou mesmo a faixa de encerramento do álbum, O Coraçãozinho. Um disco que embora curto apresentava um apanhado gigantesco de boas composições.

A boa repercussão na imprensa (principalmente nas listas de melhores do ano que sairiam ao término daquele período) abriram as portas para que a banda elaborasse uma série de shows, além de circular por alguns dos principais festivais de música do país. O sonoridade distinta da banda, dona de um som completamente oposto ao que era produzido em solo gaúcho até então – em sua maioria tomado pela suposta “máfia das bandas de terninho” – faria com que a banda se aproximasse também do público estrangeiro, gerando uma série de bons shows pelo Uruguai e Argentina, país em que o quarteto firmaria sua amizade com os integrantes do Él Mató a un Policía Motorizado, grupo de sonoridade similar com quem a banda dividiria em alguns momentos os palcos e o estúdio.

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Sem tempo para respirar, logo no ano seguinte ao seu primeiro lançamento o Superguidis já chegava com seu segundo álbum: A Amarga Sinfonia do Superstar. Com produção de Phelippe Seabra (do Plebe Rude e que já havia participado das gravações do primeiro álbum da banda) o disco aponta uma clara evolução na sonoridade a na maneira de compor do grupo. Musicalmente o álbum se entrega de forma adulta ao peso das guitarras, comportando um tipo de som ainda mais sujo e pesado do que o aquele explorado anteriormente. A presença de Seabra delimita uma atmosfera muito mais densa ao longo do álbum, com as guitarras assumindo posição de maior destaque, além da bateria de Pecker, que chega seca, dura e pronta para espancar os tímpanos dos ouvintes.

Em suas letras, a banda se afasta abruptamente do aspecto “engraçadinho” que se encontrava no primeiro disco e que talvez pudesse trazer ao grupo certo toque de “rock gaúcho” em suas composições. Levemente mais “sério”, o quarteto despeja um condensado de versos que falam de amor (O cheiro de óleo e Apenas Leia), a adaptação à vida adulta (Mais um dia de Cão), aspectos nostálgicos (6 anos) e até um toque de autoajuda e positivismo (Ainda Sem Nome). Embora carregados de beleza e um lirismo despojado, a mudança brusca tanto na sonoridade quanto nos versos exaltados pela banda carregariam algumas críticas por parte da imprensa, atestando que a banda cresceu rápido demais em relação ao seu primeiro álbum. Talvez o que algumas pessoas não tivessem percebido naquele momento, não era a banda que havia evoluído, mas o universo ao seu redor ainda se mantinha estagnado.

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Mesmo com as críticas, o disco seria figura fácil ao longo de 2007 e elevaria o quarteto gaúcho até um nível poucas vezes atingido por qualquer grupo independente ou de pequeno porte. Nos anos que se seguiriam a banda manteria um número amplo de shows, chegando a se apresentar em quase todos os estados do território brasileiro e eventualmente liberando alguma composição inédita ao público – provavelmente algum single natalino. Paralelo ao trabalho da banda, seus integrantes se desdobrariam na continuidade de estudos na faculdade ou através de outros projetos musicais, voltando aos estúdios somente em 2009 para a construção de seu terceiro álbum.

Ainda sob os olhares apreensivos da imprensa – que insistia na maturidade precoce do grupo – e na expectativa do sempre fiel público, a banda lança em 2010 seu terceiro e homônimo trabalho de estúdio. Novamente sob a tutela de Phelippe Seabra, o quarteto mostra que mesmo a suposta maturidade que os acompanhava desde o segundo álbum não era fator fundamental para excluir a jovialidade e a energia que o grupo vinha desenvolvendo desde seu primeiro registro. Ao mesmo tempo em que as guitarras ganham um peso ainda maior que o trabalho anterior, as composições seguem esbanjando uma fórmula demasiada adolescente, entregando faixas cantaroláveis e rifes projetados para colar nos ouvidos.

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Não dá pra culpar o sol por nascer/ Não dá pra culpar o sol por se pôr/ As coisas quase sempre acabam”, canta Andrio Maquenzi nos minutos iniciais do disco, acompanhado de uma base instrumental completamente distante de qualquer coisa que a banda até então tivesse projetado: violões, piano e violoncelos. A suavidade, entretanto é bruscamente interrompida quando surgem os primeiros acordes de Não Fosse o Bom Humor, uma tonalidade de guitarradas sujas, rápidas e dignas de honrar todo o batalhão de bandas da década de 1990 que o quarteto fazia questão de apresentar, sem contar naquela que é uma das maiores aberturas de discos da história recente do nosso rock.

Do princípio ao fim do disco a sonoridade apresentada pela banda é simplesmente intransponível. Embora sigam por uma tonalidade muito próxima daquela apresentada no disco de 2007, as letras das composições dentro do novo álbum ainda traziam alguns aspectos da estreia da banda, algo facilmente perceptível quando ecoam as faixas Visão Além do Alcance (“Simpatia, cruzar os dedos/ Mau-olhado, estão entre/ Os piores passatempos que eu já presenciei”) ou As Camisetas (“Por que será que sempre chove/ Toda vez que alguém te abandona?”), ambas composições exaltando um teor que se divide entre o adolescente e o adulto. Se com o segundo álbum a imprensa arranjaria desculpas para desmerecer o trabalho do grupo, com o terceiro álbum tal estratégia foi derrubada, com o disco brilhando de forma justa e absoluta como um dos grandes lançamentos do ano.

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Ao mesmo tempo em que a banda seguia com a divulgação do excelente trabalho, as gravações para um quarto disco já começavam a se organizar, com o grupo registrando em estúdio ou mesmo de forma caseira algumas demos. A convergência de inúmeras atividades paralelas ao trabalho da banda foi o que levou o grupo a anunciar o fim de suas atividades na manhã de quinta-feira, 23 de junho, sem firulas e direto ao ponto, o quarteto encerrava ali um dos maiores projetos ligados ao rock independente que já passaram em solo tupiniquim. Embora extintas as atividades da banda, os três álbuns deixados pela Superguidis são material mais do que suficiente para algumas boas décadas de audições ou no mínimo combustível para que outros futuros quartetos deem continuidade ao que a banda já vinha elaborando.