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Quando dor se transforma em música ou o transe coletivo do Grizzly Bear

Grizzly Bear
Cine Joia (03/01/2013)
São Paulo – SP

Por: Cleber Facchi

Grizzly Bear

Não é a primeira vez que me surpreendo com a atuação de uma banda ao vivo e provavelmente não será a última. Contudo, em mais de uma hora e meia de atuação, o Grizzly Bear (grupo nova-iorquino responsável por pelo menos três registros de suma importância para a música do novo século) ultrapassou todo e qualquer limite de surpresa. Não existe natureza crítica ou argumentos que comprovem o contrário, afinal, mesmo os pequenos deslizes vocais de Daniel Rossen e Ed Droste são intencionalmente arranjados de forma a alimentar a construção apoteótica que a banda se inclina a promover faixa após faixa. Existe beleza instrumental, melodias grandiosas, expressão e honestidade, entretanto, cada instante do espetáculo direcionado pelo quarteto do Brooklyn materializa a dor (física e sentimental) em música de maneira que inevitavelmente convence.

Existem grupos que assumem uma natural força para o resultado ao vivo, outros que se orientam de maneira tão inventiva (ou até mais) em estúdio, entretanto, poucos são os que conseguem casar essas duas expressões em um mesmo cenário musical. O Grizzly Bear é uma dessas. Ainda que o foco da banda se concentre na apresentação do recente (e amplamente elogiado) Shields (2012), durante toda a noite passagens pelos igualmente bons Veckatimest e Yellow House contribuíram para o crescimento da performance. Mais do que isso, cada disco alimenta uma porção do que o grupo expande no palco, como se cada um deles fosse um recorte específico da condição e dos sentimentos humanos. O mesmo resultado implica na força e na natureza das canções em estúdio, faixas que ganham outros significados ou até se revelam de maneira surpreendente ao vivo, caso do exagero (quase cênico) da outrora diminuta Foreground.

Ao longo do espetáculo é preciso notar que cada membro da banda assume uma função bastante específica. Enquanto Ed Droste é o responsável pela aproximação com o público, algo como, “eu sinto o mesmo que vocês”, Daniel Rossen assume o papel de traduzir isso musicalmente, não de maneira simples e dolorosa, mas de forma involuntariamente épica, magistral. Para afastar o grupo do óbvio Chris Taylor usa de cada espaço do show para expressar sua estranheza, incluindo instrumentos inusitados que vão de um saxofone poluído pelo clima sombrio do jazz, passando por instrumentos de sopro aleatórios, até projeções vocais totalmente robotizadas. Christopher Bear por sua vez, é quem assume a responsabilidade de movimentar a banda, amarrando cada realce minimalista com o ritmo sempre inexato da bateria. O mais curioso é perceber como ao longo da apresentação todas essas marcas específicas de cada integrante se alteram, com um ocupando o espaço do outro.

Mesmo toda a grandiosidade da banda não foi o suficiente para sobrepor a vontade e a energia ainda maior do público. Em determinado momento Rossen parou de frente para o palco sem saber o que tocar em seguida. O público estava faminto. Ninguém parecia se importar com a execução dos grandes hits – entre eles os clássicos Knife e Two Weeks -, mas com as canções mais obscuras e talvez esquecidas, um feito raro em se tratando de uma banda que nunca havia passado pelo país, quando a execução de composições mais comerciais se transforma em uma obrigação. O quarteto, claro, atendeu aos pedidos dos presentes, convertendo faixas como While You Wait for the Others e All We Ask em alguns dos instantes mais intensos de toda a noite. O público naturalmente vibrava, dançava de olhos fechados e de alguma forma se conectava com os mesmos sentimentos do grupo.

Parece exagero, e talvez seja, mas a apresentação do Grizzly Bear na noite do dia 03 de janeiro não foi um show, e sim uma experiência. Já o público, este não cantou, dançou ou acompanhou a banda ao longo da noite, simplesmente entrou em transe.

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