R&B 90’s: 12 Discos Essenciais

Em um cenário dominado por gigantes do Rock Alternativo – Nirvana, Pearl Jam – e pequenos duelos que abasteceram o Britpop – Oasis, Blur -, quem realmente conquistou o público na década de 1990 foram os entusiastas do R&B. Abastecidos pelas referências criadas por nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder, Prince e outros artistas influentes das décadas de 1970/1980, um time de novatos tomou o topo das principais paradas de sucesso, apresentando alguns dos principais exemplares da música negra do período.

Entre artistas cultuados como D’Angelo, Lauryn Hill e nomes comerciais como Mariah Carey, Aaliyah e TLC, voltamos duas décadas no tempo para resgatar 12 obras essenciais do R&B nos anos 90. Trabalhos que se entregam ao Pop, como The Writing’s on the Wall (1999), do Destiny’s Child, ou mesmo obras como Baduizm (1997), de Erykah Badu, capazes de referenciar o trabalho de veteranos e ainda assim manter o toque atual. Uma dúzia de obras marcadas pela sensualidade, versos confessionais e batidas que colam nos ouvidos em segundos. 

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Boyz II Men
II (1994, Motown)

De todos os projetos que abasteceram o R&B dos anos 1990, poucos são tão caricatos quanto o Boyz II Men. Produto típico do período, o projeto nada mais é do que um coletivo de vocalistas inclinados a revisitar a essência da música negra. Pertencentes ao casting da Motown – por onde passaram Michael Jackson e Marvin Gaye -, o grupo da Filadélfia fez do segundo álbum de estúdio, II, sua obra mais duradoura e influente. Entusiasmados pelo sucesso do single End of the Road, que havia alcançado o 1º lugar de diversas paradas de sucesso, o grupo se trancou em estúdio no final de 1993 para só aparecer no ano seguinte com o maior cardápio de hits Boyz II Men. Com a dinâmica Thank You na abertura do álbum, estava anunciada a proposta do trabalho, dividido entre composições puramente românticas (I’ll Make Love to You), e canções marcadas pela dança (U Know). Mesmo em atuação atualmente e com uma série de discos lançados, o projeto comandado pelo trio Nathan Morris, Shawn Stockman e Wanya Morris ainda não conseguiu superar musicalmente o próprio acervo conquistado no segundo álbum da carreira.

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TLC
CrazySexyCool (1994, LaFace/Arista)

A boa repercussão comercial em cima do debut Ooooooohhh… On the TLC Tip (1992) fez com que a gravadora desse maior atenção ao trabalho das garotas do TLC. Além de investir na maior divulgação do trio – Rozonda “Chilli” Thomas, Tionne “T-Boz” Watkins e Lisa “Left Eye” Lopes -, o selo não poupou esforços na produção do segundo álbum de estúdio, efeito perceptível no cuidado e na maturidade (lírica e instrumental) que ecoa por todas as faixas de CrazySexyCool. Cravejado de hits – entre eles Creep, Red Light Special e Waterfalls -, o álbum segue em direção contrária ao exercício testado no primeiro disco, reforçando o teor provocativo e o caráter sexual criado em torno do trio. Com participações de Busta Rhymes, André 3000 (Outkast) e Phife Dawg, o disco se divide do primeiro ao último acorde entre faixas melódicas (Kick Your Game) e composição essencialmente sedutoras (Diggin’ on You), acertado em cheio o grande público. O resultado não poderia ser outro: CrazySexyCool passou dois anos em destaque nas principais paradas de sucesso, vendeu 23 milhões de cópias ao redor do mundo e ainda posicionou o TLC no grupo dos gigantes do R&B.

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Mary J. Blige
My Life (1994, Uptown)

Mary J. Blige é dona de um catálogo invejável de obras lançadas nos anos 1990. Do bem sucedido debut What’s the 411? (1992), passando por Share My World (1996), até alcançar o sóbrio Mary (1999), cada disco assinado pela nova-iorquina transmite confissão e maturidade rara para uma artista novata. Todavia, mesmo dentro desse universo de obras memoráveis, poucos trabalhos da cantora refletem a mesma carga de acertos do melancólico My Life. Autobiográfico e fragmentado entre o Hip-Hop e o R&B, o segundo álbum solo de Blige é um passeio pela vida conturbada da artista durante o período em que foi composto. Separação, problemas com as drogas, depressão e medo, cada faixa do trabalho usa de uma série de artifícios contidianos da cantora para crescer lírica e sentimentalmente. Comandado por Puff Daddy, o disco concentra algumas das composições mais importantes da carreira da Blige, caso de Be Happy, I Never Wanna Live Without You e I’m Goin’ Down, faixas que transportaram a cantora para o topo das paradas de R&B/Hip-Hop da época e parecem tão atuais hoje, quanto na época em que foram lançadas.

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D’Angelo
Sugar Brown (1995, EMI)

Os detalhes se espalham por toda a composição de Sugar Brown. Registro de estreia do cantor e multi-instrumentista D’Angelo, o álbum lançado em julho de 1995 levou um ano até ser finalizado, efeito do isolamento do músico – responsável pela gravação de praticamente todos os instrumentos do disco, bem como pela assinatura dos arranjos que o definem. O resultado está impresso em uma obra intimista, propósito que inicia na autointitulada música de abertura e segue em meio a composições como Alright e Smooth. Carregado de referências aos clássicos do R&B / Soul da década de 1970 – principalmente Al Green e Prince -, Sugar Brown foi todo concebido a partir de instrumentos vintage e aparelhos de gravação analógicos, o que explica o caráter “empoeirado” impregnado em cada falsete ou acorde do disco. Registro mais importante do gênero durante o período, a estreia de D’Angelo não apenas foi bem recebida pela crítica, como atingiu diretamente o público, levando músicas como Cruisin’ e Lady para as principais paradas de sucesso da época. Influência para Erykah Badu, Lauryn Hill e outros nomes de peso do período, Sugar Brown é ainda a base para toda a geração do Neo-Soul nos anos 2000 – como Justin Timberlake e Janelle Monáe -, além de servir como base para o também brilhante Voodoo, trabalho que D’Angelo apresentaria cinco anos mais tarde.

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Groove Theory
Groove Theory (1995, Epic)

A estreia do Groove Theory é o típico caso de um disco que não chegou a alcançar o grande público, mas conquistou e influenciou um grupo importante de seguidores fieis. Aos comandos de Bryce Wilson, produtor executivo e principal compositor do trabalho, o registro é uma coleção de temas ora melancólicos, ora sedutores, típicos do R&B da época. A diferença em relação ao abrangente time de cantores e grupos que ocupavam a música da época está no completo minimalismo da obra, orquestrada por Wilson e traduzida nos vocais de Amel Larrieux. Longe da gama de registros referenciais, a autointitulada estreia é uma obra atenta ao próprio tempo, sonoridade traduzida nas batidas eletrônicas e colagens sintéticas – por vezes íntimas do Trip-Hop. Mesmo com faixas voltadas ao grande público – caso de Baby Luv e Keep Trying -, o disco nunca ultrapassou a atmosfera tímida que havia construído, fugindo das massas para atingir nomes como Beyoncé e Mary J. Blige. Com a saída de Larrieux, em 1999, Wilson até tentou seguir com o projeto, abandonado em 2000, durante a produção do álbum The Answer.

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R. Kelly
R. Kelly (1995, Jive/Zomba)

Enquanto D’Angelo transformou Sugar Brown em uma obra nostálgica, transportando a música negra para o passado, ao alcançar o segundo disco solo no mesmo ano, R. Kelly manteve os dois pés no presente. Urbano, o registro apresentado em novembro de 1995 é um passo além em relação ao que o cantor havia testado em 12 Play, de 1993, ou mesmo quando comparado ao pop Born into the 90’s (1990), registro em parceria com o Public Announcement. Trata-se de uma obra particular, tecida pelo romantismo (Not Gonna Hold On), provocação (You Remind Me Of Something) e todas as ferramentas líricas necessárias para um trabalho bem sucedido do gênero. Dosando a sutileza das vozes e bases com elementos típicos do Hip-Hop, Kelly cria um ambiente coeso para que nomes como The Notorious B.I.G. possam circular pela obra – preferência reforçada no sucessor R. (1998). Com críticas favoráveis e comparações ao trabalho de Marvin Gaye e Prince, Kelly ainda veria o trabalho ser bem recebido pelos ouvintes, encontrando na atmosfera delicada o caminho seguro para toda uma sequência de obras que seriam lançadas nos anos 2000.

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Mariah Carey
Daydream (1995, Columbia)

Butterfly (1997) pode até ser o grande sucesso comercial de Mariah Carey na década de 1990, contudo, é no interior de Daydream que sobrevivem algumas das faixas mais significativas da carreira da cantora. Inaugurado pelo toque dançante de Fantasy – música que resgata samples de Genius of Love do Tom Tom Club -, o quinto álbum de Carey dosa instantes de evidente comunicação com o pop, caso de Always Be My Baby, e faixas que se acomodam no típico cenário do R&B da época, vide a parceria com o Boyz II Man em One Sweet Day. Grandioso, o álbum sobrepõem uma sequência rara de faixas essencialmente comerciais e ainda assim distantes de qualquer teor descartável. Da abertura quente, passando por composições mais lentas (Underneath the Stars), faixas orquestrais (When I Saw You) e até criações de arranjos minimalistas (Melt Away), cada música espalhada pelo registro reforça o perfume dos sentimentos de Carey, pela primeira vez responsável por grande parte dos versos encaixados no disco. Ponto de partida para o ápice comercial da artista, Daydream é o registro que anuncia a transformação e explícita maturidade de Carey, pronta para seduzir o grande público nos trabalhos seguintes.

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Maxwell
Maxwell’s Urban Hang Suite (1996, Columbia)

Se Erykah Badu carrega o título de “rainha do Neo Soul” e D’Angelo o de “rei”, então Maxwell talvez seja o “príncipe” responsável por todas as mudanças que orientaram a música negra nos anos 1990. Naturalmente inclinado a produzir uma obra autoral, o multi-instrumentista original de Nova York fez do debut Maxwell’s Urban Hang Suite uma espécie de regresso aos bons anos da Funk Music na década de 1970. Sedutor, o disco recicla de forma transformada uma série de conceitos antes apresentados por Marvin Gaye, Curtis Mayfield e Barry White, fazendo da voz de Maxwell o ponto central da obra. Conceitual (e ao mesmo tempo autobiográfico), o álbum acompanha todo o ciclo de um casal, partindo do primeiro encontro (Welcome), até o desfecho triste que surge nas últimas faixas. Curioso observar que mesmo o hermetismo proposital da obra não custou a impressionar o público. Com boas vendas, Maxwell’s Urban Hang Suite garantiu ao músico uma série de obras assertivas – todas elas guiadas pelo mesmo tratamento dado ao debut.

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Aaliyah
One in a Million (1996, Blackground, Atlantic)

A forte relação com o Hip-Hop, expressa logo no debut Age Ain’t Nothing but a Number, de 1994, aparece delicadamente adaptada em One in a Million. Segundo registro em estúdio de Aaliyah, o álbum ecoa letargia em meio a experimentos atípicos para o R&B plástico que crescia na época. Produzido e composto em grande parte pela dupla Missy Elliott e Timbaland, o registro transforma a cantora nova-iorquina em uma assertiva ferramenta, conduzida de forma precisa a cada novo ato do trabalho. Econômico, o disco borbulha samples sutis e batidas encobertas pelo grave, espalhando de forma aleatória elementos percussivos assinados pelo brasileiro Paulinho da Costa. Ainda que acompanhada por nomes como Slick Rick (Got to Give It Up) e Treach (A Girl Like You), além dos próprios produtores do álbum em determinadas faixas, One in a Million é um disco em que a voz de Aaliyah se destaca em essência. Entre músicas provocantes (Hot Like Fire) e confessionais (The One I Gave My Heart To), a cantora viria a estabelecer as bases para toda a nova safra de representantes do Soul/R&B.

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Erykah Badu
Baduizm (1997, Kedar/Universal)

Em um sentido oposto ao que direcionava o R&B no final da década de 1990 – cada vez mais eletrônico e eufórico -, Erykah Badu apareceu com o primeiro álbum de estúdio acomodada em arranjos minimalistas e vozes deliciosamente límpidas. Intitulado Baduizm, o tratado de 14 faixas – algumas delas pequenas vinhetas – é uma fuga parcial das experiências alcançadas no Soul da década de 1970, bebendo diretamente dos clubes de Jazz e outras referências instaladas nos primórdios da música negra – vide a presença do jazzista Bobby Bradford. A linha de baixo segura parece servir de base para a voz hipnótica da cantora, sempre a destilar os próprios sentimentos em composições como No Love, Otherside of the Game e demais blocos melancólicos da obra. Ponto de partida para a série de registros que dariam vida ao Neo Soul, Baduizm é uma obra de encontros. Ainda que o caráter nostálgico das vozes, temas e arranjos transportem o ouvinte ao passado, parte significativa da obra se mantém voltado ao presente da época em que foi lançado. Não por acaso nomes como The Roots e outros músicos da época passeiam livremente pelo registro, forçando Badu a se dividir por entre diferentes décadas e tendências.

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Lauryn Hill
The Miseducation of Lauryn Hill (1998, Columbia)

Por mais que The Miseducation of Lauryn Hill seja encarado como o primeiro álbum da carreira de Lauryn Hill, considerar a cantora/rapper uma iniciante em 1998 seria um erro brutal. Outrora integrante do coletivo Fugees e colaboradora frequente em uma série de obras lançadas nos anos 1990, Hill encontrou no próprio debut um espaço para comprovar toda a maturidade que havia acumulado. Carregado por referências e temas autobiográficos, o disco é um passeio pela trajetória da artista, indo dos corais de música gospel que a artista frequentou na infância, aos flertes com o reggae do Fugees, até o espaço conquistado dentro da cena Hip-Hop. Único registro em estúdio de Hill, The Miseducation… é a casa de um grupo de faixas que acertaram em cheio o grande público – Everything Is Everything e Doo Wop (That Thing) – e ao mesmo tempo obrigaram a crítica a se curvar diante da cantora. Resumo não intencional de tudo o que definiu a produção do período, o trabalho ainda abre passagem para que D’Angelo, Mary J. Blige e outros personagens relevantes da época circulem com liberdade, tirando Hill do isolamento da própria obra.

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Destiny’s Child
The Writing’s on the Wall (1999, Columbia)

Dos cinco registros em estúdio lançados pelo Destiny’s Child, The Writing’s on the Wall talvez seja o álbum que melhor traduz a proposta e a plena colaboração do coletivo texano. Menos “controlado” em relação ao debut apresentado um ano antes, o registro de 1999 comprova o acerto na maior participação e interferência do grupo de vocalistas – na época formado por Beyoncé Knowles, LaTavia Roberson, Kelly Rowland e LeToya Luckett -, assumindo parte dos versos e produção da obra. Claro que comandar as rédeas do trabalho não distanciou as garotas de um típico exemplar da música pop. A julgar pela boa repercussão em cima dos quatro singles – Bills, Bills, Bills, Bug a Boo, Say My Name e Jumpin, Jumpin -, o segundo trabalho em estúdio do grupo é o mais acessível comercialmente e, ainda hoje, o mais lembrado pelos fãs. Parte do acerto do registro vem do time de produtores encabeçado por Missy Elliott, além, claro, da própria Beyoncé, capaz de resumir aspectos que viriam a ser reforçados no debut solo Dangerously in Love (2003).

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