"7"

Ano: 2018
Selo: Sub Pop / Bella Union
Gênero: Dream Pop, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Deerhunter e Grizzly Bear
Ouça: Dive, Lemon Glow e Black Car
Nota: 9.0

Resenha: “7”, Beach House

Não seria uma surpresa se depois de uma década de carreira, Victoria Legrand e Alex Scally sufocassem pelo peso da própria obra. Mesmo entregue ao permanente reinvento da identidade artística — vide a boa sequência montada com  Depression CherryThank Your Lucky Stars —, desde o ápice, em Teen Dream (2010) e Bloom (2012), a dupla original de Baltimore, Maryland, parece dar voltas em torno de um mesmo ambiente criativo. Não por acaso, no último ano foi apresentada a coletânea B-Sides and Rarities (2017), uma limpeza de repertório, como uma despedida de tudo aquilo que vem sendo produzindo pelo duo desde o primeiro registro em estúdio.

Soprada a poeira dos antigos projetos, Legrand e Scally entraram em estúdio para a gravação do sétimo álbum de inéditas do Beach House, 7 (2018, Sub Pop / Bella Union). “Queríamos repensar métodos antigos e abandonar algumas limitações auto-impostas. No passado, limitávamos nossa escrita a partes que pudéssemos realizar ao vivo. Em 7, decidimos seguir o que veio naturalmente“, explica o texto de apresentação da obra, indicando o esforço e completo desejo da dupla em se reinventar dentro de estúdio.

Toda essa transformação se reflete logo nos primeiros minutos do trabalho, na crescente Dark Spring. Da bateria de James Barone aos sintetizadores de Legrand e guitarras carregadas de efeito de Scally, poucas vezes antes o Beach House pareceu tão intenso, épico. E isso é apenas o princípio de uma obra marcada pela força pulsante das distorções, batidas e vozes fortes. Prova disso está em Dive, uma lenta corrupção de tudo aquilo que a dupla vem aprimorando desde o homônimo debute, servindo de base para um oceano de emanações psicodélicas, ruídos e vozes duplicadas, reflexo da interferência direta do produtor Sonic Boom (Panda Bear, MGMT).

A mesma força avassaladora dos arranjos e uso de contrastes rítmicos se reflete na poesia do álbum. São confissões românticas, como em Lemon Glow (“Quando você acende as luzes/ Cor de limão, brilho de mel / É o que você faz / Isso me puxa“), versos que refletem o isolamento dos indivíduos, como em Drunk In LA (“Na encosta de uma colina eu lembro / Eu estou amando perder a vida“), além de músicas que refletem os conflitos da alma feminina, vide a dolorosa Girl of The Year (“Vista-se para se despir / Deprimida para impressionar“), canção inspirada na modelo e atriz Edie Sedgwick, uma das musas de Andy Warhol.

Em um sentido amplo, estamos interessados nas tendências da mente humana e da natureza em criar forças iguais e opostas às presentes. Tematicamente, esse registro lida com a beleza que surge ao lidar com a escuridão; a empatia e o amor que cresce do trauma coletivo“, respondeu Legrand em entrevista ao site The Line of Best Fit. De fato, poucas vezes antes o trabalho da dupla norte-americana pareceu tão próxima do público médio quanto em 7, conceito reforçado pela poesia sensível e simples que se estende até a derradeira Last Ride.

Interessante notar que mesmo dentro desse ambiente tão restrito, íntimo da dupla, poucas vezes antes os integrantes do Beach House foram capazes de confessar as próprias referências de forma tão explícita quanto em 7. Difícil passear pelas melodias embriagadas e acústicas de Lose Your Smile e não lembrar do som produzido pelo Mazzy Star. Na inaugural Dark Spring, guitarras e ambientações que vão do Slowdive ao Cocteau Twins. Surgem ainda experimentações etéreas, como em L’Inconnu, e inserções eletrônicas, como nos instantes iniciais Black Car, música que lembra a colaboração da dupla na coletânea The Space Project.

Delirante e sóbrio na mesma proporção, 7 transporta o som produzido pelo Beach House para um novo território criativo. Onde antes borbulhavam melodias e ambientações tímidas, sempre apontando para a obra de veteranos como Galaxie 500, hoje brotam blocos instrumentais imensos, valorizando cada nota e fragmento poético detalhado por Legrand. Um curioso resgate de tudo aquilo que a dupla vem produzindo nos últimos dez anos, porém, de forma essencialmente transformada e mágica.

 


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