"A é Côncavo, B é Convexo"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Pós-Rock, Rock Instrumental
Para quem gosta de: Kalouv, Constantina e Labirinto
Ouça: Volca, Niilismo e Jacó
Nota: 8.8

Resenha: “A é Côncavo, B é Convexo”, ruído/mm

Dez anos se passaram desde que os integrantes da ruído/mm deram vida ao primeiro álbum de estúdio da carreira, o precioso A Praia (2008). De lá para cá, cada novo registro autoral produzido pelo grupo curitibano parece transportar o ouvinte para dentro de um território completamente novo, mágico. Seja nas abstrações atmosféricas que invadem Introdução à Cortina do Sótão (2011) ou afundado no oceano melancólico de Rasura (2014), colorida e sempre detalhista é a extensa tapeçaria instrumental que vem sendo tecida por cada integrante da banda — hoje formada pelos músicos Alexandre Liblik (piano e teclados), André Ramiro (guitarra), Felipe Ayres (guitarra e efeitos eletrônicos), Giovani Farina (bateria), Rafael Panke (baixo) e Ricardo Pill (guitarra).

Síntese desse permanente refinamento estético ecoa com naturalidade tão logo a climática Niilismo tem início. Composição escolhida para apresentar o novo álbum de inéditas do grupo paranaense, A é Côncavo, B é Convexo (2018, Independente), a faixa de essência atmosférica ganha forma aos poucos, sem pressa, sussurrando pianos, guitarras etéreas e ruídos pontuais de forma hipnótica. São paisagens instrumentais marcadas pela completa leveza das melodias, como uma interpretação particular do som produzido por estrangeiros como Sigur Rós e Mogwai.

De fato, poucas vezes antes um registro entregue pela ruído/mm pareceu tão delicado, doce. São pianos e sintetizadores harmônicos em Tesserato; na semi-acústica Esporos, o dedilhado econômico que flutua em meio a fragmentos eletrônicos; em Jacó, sétima faixa do disco, instantes de parcial reducionismo que antecedem um final turbulento, como tímidas pinceladas instrumentais em uma tela em branco. Tudo parece pensado para confortar o ouvinte, conceito que dialoga diretamente com a minimalista imagem de capa do disco. Frações melódicas que seguem o caminho oposto ao material entregue no antecessor Rasura, obra guiada pela força das batidas e guitarras ascendentes.

Claro que essa propositada busca por um som contemplativo não interfere na produção de faixas grandiosas, fortes. É o caso de Volca. Porção mais coesa do trabalho, a canção inaugurada em meio a ambientações etéreas e pianos climáticos logo se abre para a inserção de guitarras carregadas de efeitos e a bateria pontual de Farina. Um turbilhão instrumental que encolhe e cresce a todo instante, como uma fuga do som minimalista que inaugura o álbum. A mesma grandiosidade se faz evidente em Antílope, composição de essência mutável, forte, como um regresso ao mesmo plano conceitual do álbum anterior.

Em músicas como Ouroboros e Tesserato, ideias que se entrelaçam de forma provocativa, indicativo da completa versatilidade da banda dentro de estúdio. São vozes trabalhadas como instrumentos, guitarras labirínticas e uma fina chuva de sintetizadores que parece cobrir toda e qualquer brecha do trabalho. Longe de uma estrutura pré-definida, perceba como cada movimento lançado pela banda muda de forma delirante toda a estrutura do disco, tornando a experiência do ouvinte sempre incerta.

Dividido entre momentos de fúria e atos do mais profundo recolhimento, A é Côncavo, B é Convexo exige o constante regresso e uma audição atenta até se materializar por completo na cabeça do ouvinte. Enquanto músicas como Niilismo e Esporos mais ocultam informações do que parecem revelar, guitarras volumosas, como as de Volca e Jacó, arrastaram o público para dentro de um cenário de formas instáveis. Instantes em que o sexteto curitibano parece a testar os próprios limites dentro de estúdio, proposta que em nenhum momento corrompe a formação de músicas deliciosamente aprazíveis, por vezes hipnóticas, como um irrecusável convite a se perder em universo próprio da banda.

 


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