"ABC Love e o Álbum do Prazer"

Ano: 2017
Selo: Balaclava Records
Gênero: Dream Pop, Lo-Fi
Para quem gosta de: Séculos Apaixonados e Terno Rei
Ouça: Carne Viva e Epifanias
Nota: 7.5

Resenha: “ABC Love e o Álbum do Prazer”, ABC Love

Sedução, mistério e sexo. Esses são alguns dos elementos que marcam o primeiro álbum de estúdio do projeto paulistano A Band Called Love, o recém-lançado ABC Love e o Álbum do Prazer (2017, Balaclava Records). Letras consumidas pela completa lasciva e confissões românticas assinadas por um senhor de 70 anos de idade, o fictício personagem boêmio Gevard DuLove, mente responsável pela seleção de versos e arranjos empoeirados que sopram no interior do trabalho.

Inaugurado pela climática Quem É Você?, música que brinca com a questão da identidade levantada pelo misterioso DuLove, o trabalho de apenas dez faixas segue vagaroso, brincando com as referências e nuances instrumentais. Entre versos marcados pela forte sexualidade e romantismo escancarado do eu lírico, o músico paulistano vai do rock provocante dos anos 1970, evocando Serge Gainsbourg, ao pop lo-fi e psicodélico que floresceu no início da presente década.

Difícil não lembrar do som produzido por Connan Mockasin, Ariel Pink, John Maus e tantos outros artistas em constante processo de atuação dentro da cena alternativa dos Estados Unidos. Composições montadas a partir de versos submersos, como se a poesia lançada por DuLove servisse de complemento ao som enevoado que sutilmente cresce no interior de cada composição, vide o trabalho apresentado em músicas como Noite Quente e todo o primeiro bloco de faixas do disco.

Um bom exemplo disso está em Carne Viva, música que flutua em meio a camadas de distorções, vozes carregadas de efeitos e diálogos sampleados, lembrando em alguns aspectos uma versão psicodélica do som produzido pelo Séculos Apaixonados para o primeiro álbum de estúdio da banda, Roupa Linda, Figura Fantasmagórica (2014). Arranjos e versos abafados, propositadamente inteligíveis, conceito que se repete com naturalidade em músicas como Le Petite ÉtoileModèle.

É justamente dentro desse cenário marcado pelo uso de melodias etéreas que ABC Love e o Álbum do Prazer encontra um de seus principais problemas: a forte similaridade entre as faixas. Salve exceções, como a psicodelia explorada em Epifanias ou mesmo o synth-rock detalhado na instrumental Paja, poucos são os momentos em que DuLove e os parceiros de banda conseguem se distanciar de uma mesma base atmosférica, tornando a execução do trabalho repetitiva em diversos momentos.

Todavia, mesmo dentro desse universo de pequenas repetições, difícil escapar do som hipnótico que cresce do primeiro ao último acorde da obra. Soturno, ABC Love e o Álbum do Prazer se espalha lentamente, como um passeio embriagado pelo que há de mais sujo e provocante em qualquer centro urbano. Canções que ultrapassam o território criativo do eu lírico/personagem montado para a obra, fazendo de cada composição um pequeno delírio transformado em música.

 

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