"Água Pedra"

Ano: 2017
Selo: Desmonta
Gênero: Afropop, Indie, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Metá Metá e Felipe Cordeiro
Ouça: Deserto, Vestir as Calças e Vento
Nota: 8.0

Resenha: “Água Pedra”, Valério

Livre de possíveis regras, a música de Guilherme Valério se espalha curiosa, brilha e cresce. Em um diálogo particular com os ritmos e a cultura africana, o cantor e compositor paulista faz do primeiro álbum em carreira solo um curioso desvendar da própria essência. Canções marcadas pelo forte regionalismo além mar, mas que em nenhum momento se distanciam do pop-rock em sua composição mais honesta, fazendo de Água Pedra (2017, Desmonta) um colorido cardápio de ideias, fórmulas e sonoridades a serem exploradas pelo ouvinte.

Inaugurado pelo canto brando de Antes — “A música não é do bar / Não é da casa de show / Não é da rádio / Nem da TV / a música vem de longe” —, o trabalho chega até o público em pequenas doses. Um som cuidadoso, perfeitamente planejado, percepção reforçada no afropop colorido de Deserto. Melodias de vozes que se conectam diretamente à kalimba de Valério, soando como uma versão curiosa do som produzido pelo capixaba Silva no inaugural Claridão, de 2012. Instantes que se abrem para a flauta pontual de Zé Barrichello e temas percussivos montados por Esdras Oliveira.

Ainda assim, é só com a execução da terceira faixa do disco, Vestir As Calças, que o trabalho de Valério se revela por completo. Estão lá as rajadas de guitarras, quebras e curvas ritmicas que indicam a direção seguida pelo músico paulista em parte expressiva da obra. Um cruzamento entre o rock e a música africana, como uma versão descomplicada do som produzido pelo Metá Metá. Um som ensolarado, por vezes carnavalesco, como a dobradinha formada por Vento e Fincada detalham em um intervalo de pouco mais de cinco minutos de duração.

Sexta faixa do disco, Marfim joga com a dualidade dos elementos. Arranjos e vozes sutis que se espalham em meio a guitarras sujas, carregadas de efeitos, como se Valério e os parceiros de banda testassem todas as possibilidades dentro de estúdio. Interessante perceber na faixa seguinte, O Fim Pelo Começo, uma clara continuação do mesmo conceito. Arranjos tortos que indicam a construção de um som ora ruidoso e climático, ora acolhedor e acessível, com o ouvinte fosse conduzido pelo interior de um experimento marcado pelas incerteza e permanente senso de descoberta.

Com a chegada de Iluminação, oitava faixa do disco, a passagem para o lado mais experimental e, consequentemente, curioso da obra. Ambientações complexas que se entregam ao jazz, lembrando o trabalho de veteranos como Fela Kuti, influência evidente durante toda a execução da registro, além de nomes recentes da música africana, caso do coletivo congolês Konono Nº1 e o duo britânico/malawi The Very Best. Batidas e arranjos quentes que ainda preparam o terreno para a semi-pop Antídoto, música que resgata o som colorido detalhado no primeiro bloco do álbum.

Deixada por último, para o encerramento do disco, a versátil Barulho Senhor acaba funcionando como um resumo involuntário de tudo aquilo que Valério apresenta no decorrer da obra. Vozes tratadas como instrumentos, guitarras rápidas, sempre detalhistas, além de versos trabalhados de forma a preencher cada fragmento do registro. Ideias sobrepostas e espalhadas em uma fina tapeçaria instrumental/poética, como um convite a reviver o universo musical desbravado pelo artista desde a abertura do álbum com a tímida Antes.