"Alba"

Ano: 2017
Selo: Coletivo Atlas / Desmanche
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Nuven e Flying Lotus
Ouça: Arca e Cros
Nota: 8.0

Resenha: “Alba”, Mante

Seja como integrante do grupo do grupo de pós-rock Dunas ou nas experimentações intimistas que caracterizam os trabalhos do Veenstra, o cantor e compositor curitibano Lorenzo Molossi nunca seguiu um caminho previsível. A cada novo registro autoral, a busca declarada por um material de essência abstrata, sempre mutável, transformação constante que alcança novo resultado nas canções produzidas para o primeiro álbum do músico sob o título de Mante, o recém-lançado Alba (2017, Coletivo Atlas / Desmanche).

Produto da colorida sobreposição de ideias, referências, samples e temas instrumentais que passeiam por diferentes campos da música eletrônica/ambiente, o registro inaugurado pela complexidade de Arca carrega na colagem dos sintetizadores, vozes e batidas semi-carnavalescas um curioso resumo de tudo aquilo que Molossi sutilmente amplia no decorrer da obra. Um lento desvendar dos elementos, como se o músico brincasse com a desconstrução de pequenas identidades.

Exemplo disso está na composição de Cros, quarta faixa do disco. Em um intervalo de poucos minutos, Molossi colide fragmentos recortados de Shape, música originalmente composta pela norte-americana Glasser para o álbum Interiors (2013), passa pela voz em loop da cantora Duda Brack – “é meu passatempo” –, e segue em meio ao uso delicado de uma série de elementos percussivos, ambientações etéreas e pianos, transportando o ouvinte para diferentes cenários.

Como indicado logo nos primeiros minutos, Alba é uma obra que nasce da mistura de estilos. Do momento em que tem início, em Arca, até alcançar a derradeira Sol Solen, Molossi joga com as possibilidades, costurando décadas de referências no interior de pequenos labirintos instrumentais. É o caso de Milagres de Palmes ao Planeser, nona faixa do álbum. São pouco mais de cinco minutos que o artista curitibano vai da música erudita ao Hip-Hop, provando de novas sonoridades e ruídos urbanos a cada nova curva da composição.

O mesmo colorido instrumental se revela na delicada Instante, faixa que invade o mesmo território criativo de artistas como Flying Lotus e Shlohmo. Em Alba, sexta composição do disco, experimentações eletrônicas que provam de temas “robóticos”, lembrando uma versão pop do som produzido por Oneohtrix Point Never no excelente Garden of Delete (2015). Blocos de ruídos costurados de forma sempre transformadora, refinamento evidente no minimalismo torto de Loga 11, faixa que traz de volta os mesmos elementos percussivos que inauguram o álbum.

Em produção desde 2014, quando Molossi deu início ao trabalho durante um período de vivência fora do país, porém, finalizado há poucos meses, Alba é um registro que parece maior a cada nova audição. Por trás de cada composição detalhada pelo músico curitibano, um imenso catálogo de ritmos, interferências pontuais, vozes e combinações eletroacústicas que parecem brincar com os sentidos. Uma permanente ausência de certeza e forte ruptura instrumental, componentes essenciais para a constante renovação que alimenta a obra.

 

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