"Além"

Kiai

Ano: 2018
Selo: Escápula Records
Gênero: Jazz, Pós-Rock, Experimental
Para quem gosta de: Bixiga 70 e Azymuth
Ouça: Maloca, Smile Black e Além
Nota: 9.0

Resenha: “Além”, Kiai

Quatro anos, esse foi o tempo investido pelos músicos Marcelo Vaz (piano e teclado), Lucas Fê (bateria) e Dionísio Souza (baixo elétrico) para a produção do complexo Além (2018, Escápula Records), primeiro álbum de estúdio do grupo gaúcho Kiai. Ora climático e intimista, feito para ser apreciado sem pressa, ora grandioso, conduzido em meio a nuances e camadas instrumentais de vívido esmero, o trabalho de sete faixas (oito na versão digital) convida o ouvinte a se perder em um cenário marcado pela constante transformação, como uma fuga declarada do óbvio.

Completo pela presença do guitarrista Isaías Soares, hoje ex-integrante da banda, a estreia do grupo gaúcho é um trabalho que exige tempo até ser absorvido em essência pelo ouvinte. De fato, são mais de 70 minutos de duração dissolvidos em meio a composições extensas, atos espaçados com mais de 10 minutos de duração onde cada instrumentista assume uma posição de merecido destaque, detalhando um universo de histórias e influências particulares mesmo no completo silenciamento das vozes.

Ainda que próximo de diferentes clássicos do jazz norte-americano, Além cresce como um registro marcado pela forte brasilidade. Trata-se de um claro diálogo da banda com o som produzido por diferentes representantes da música nacional durante toda a década de 1970. Da percussão e pianos versáteis em Maloca, composição que lembra os encontros entre Marcos Valle e Azimuth, passando pelo samba torto e semi-funkeado de Smile Black, faixa que parece ter saído de algum trabalho da Banda Black Rio, difícil não se deixar conduzir som quente que emana das canções do grupo.

Exemplo disso está na faixa-título do disco. Em um intervalo de quase 13 minutos de duração, diferentes temas instrumentais, tendências e possibilidades se cruzam dentro de estúdio, como se a banda gaúcha, mesmo dona de uma identidade musical própria, fosse capaz de dialogar com a obra de diferentes artistas, indo dos temas psicodélicos de João Donato à completa experimentação de Hermeto Pascoal. Um verdadeiro turbilhão criativo que alcança melhor resultado no labirinto sonoro de Há Tempos ou mesmo na lenta execução de Deslocado de Sexta.

Curioso perceber em faixas como Passando Dias, sétima composição do trabalho, uma parcial fuga desse mesmo universo criativo. Assim como na inaugural A Sala, toda a essência festiva do grupo parece silenciar temporariamente, fazendo do uso de temas atmosféricos e arranjos melancólicos, por vezes íntimos do pós-rock, o indicativo de um novo posicionamento estético. Um som ainda imenso, mesmo minucioso e sensível, como se o quarteto testasse os próprios limites dentro de estúdio.

Maior a cada nova audição, Além, como o próprio título indica, parece longe de alcançar um possível limite conceitual. Trata-se de uma obra em constante processo de aprimoramento e fina evolução, como se mesmo seguindo por uma linha criativa detalhada logo na faixa de abertura, cada fragmento do disco fosse capaz de transportar o ouvinte para dentro de um território completamente novo, mágico. Um ilimitado conjunto de regras e preferências instrumentais que não apenas apresentam o trabalho da Kiai de forma eficiente como deliciosamente bagunçam a interpretação do ouvinte.

 


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