"All Melody"

Nils Frahm

Ano: 2018
Selo: Erased Tapes
Gênero: Experimental, Ambient, Instrumental
Para quem gosta de: Max Richter e Jóhann Jóhannsson
Ouça: All Melody, Season e My Friend the Forest
Nota: 8.0

Resenha: “All Melody”, Nils Frahm

Nils Frahm é um desses artistas que de tempos em tempos parecem capazes de perverter a própria obra e presentear o público com um material marcado pelo profundo frescor dos elementos. Seja por meio de captações de campo extraídas de diversos cenários, como no atmosférico Spaces (2013), ou mesmo por meio de coletâneas produzidas para diferentes selos, vide a participação no projeto Late Night Tales (2015), sobram instantes em que a música do compositor germânico se dobra de forma a provar de novas experiências e conceitos dentro de estúdio.

Reflexo da constante transformação de Frahm, All Melody (2018, Erased Tapes) não apenas sintetiza parte do som que vem sendo produzido pelo músico de Hamburgo nos últimos anos, como sutilmente amplia esse cardápio de ideias. Talvez livre da homogeneidade que marca o último registro de inéditas, o minimalista Solo (2015), cada uma das 12 faixas do presente disco aponta para um direção específica, fazendo do uso de temas eletroacústicos e vozes um curioso ponto de conexão entre as faixas.

Da breve introdução em The Whole Universe Wants to Be Touched, faixa de abertura do disco, para o mundo de possibilidades que se abre na extensa Sunson. Mesmo preservando a identidade de cada fragmento do álbum, perceba como as canções se revelam de forma complementar, como se as lacunas deixadas em um ato específico servissem de base para a canção seguinte. Ideias quase antagônicas, como um contínuo desvendar de experiências, melodias etéreas e experimentações, base para faixas volumosas e crescentes como #2 e a versátil A Place.

Salve exceções, como em My Friend the Forest, música em que é possível perceber os ruídos e movimentos de cada nota encaixada por Frahm, All Melody se revela como um disco grandioso, mesmo no minimalismo de seus atos. Exemplo disso está na própria faixa-título do disco. Em um intervalo de quase dez minutos de duração, diferentes texturas, fórmulas instrumentais e pequenas inserções eletrônicas se moldam de forma a atender aos desejos do compositor, como um permanente desvendar de novos conceitos e sonoridades vívidas.

Dentro desse território dominado pela incerteza e constante transformação musical de Frahm, curioso notar um claro fortalecimento no uso das batidas e outros elementos percussivos por vezes raros na carreira do artista germânico. Basta apontar os ouvidos para a segunda metade de Sunson e perceber como o alinhamento dado aos sintetizadores se comportam de forma essencialmente dinâmica, ritmada. No canto abstrato e pianos de A Place, batidas econômicas que invadem o mesmo território de Aphex Twin e outros nomes da ambient techno.

Nascido da profunda colisão de ideias, vide os temas operísticos e diálogos com o jazz em Human Range, quinta faixa do disco, Nils Frahm faz dos mais de 70 minutos do trabalho um profundo desvendar de novas sonoridades, ritmos e cruzamentos instrumentais. Como indicado no próprio título da obra — em português, “toda melodia” —, limites sutilmente caem por terra tão logo o álbum tem início, fazendo da amarra entre diferentes retalhos conceituais/melódicos a força criativa que orienta toda a estrutura do registro.

 


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