"All This I Do For Glory"

Ano: 2017
Selo: 52Hz / Kartel Music Group
Gênero: Experimental, Jazz
Para quem gosta de: Matana Roberts, Zs e The Caretaker
Ouça: Between Water and Wind, Spindrift
Nota: 8.0

Resenha: “All This I Do For Glory”, Colin Stetson

Seja como colaborador em diferentes projetos da cena alternativa – BADBADNOTGOOD, TV On The Radio e Bon Iver –, ou mesmo na execução de trabalhos lançados em carreira solo, Colin Stetson passou grande parte da última década se reinventando. Longe de uma possível zona de conforto, cada registro assinado pelo saxofonista norte-americano parece desvendar um novo território musical, proposta que se repete com naturalidade nas canções de All This I Do For Glory (2017, 52Hz / Kartel Music Group), mais recente álbum do jazzista.

Entregue ao público poucos meses após o lançamento do obscuro Sorrow – A Reimagining of Gorecki’s 3rd Symphony (2016), trabalho em que Stetson adapta de forma particular a obra do compositor polonês Henryk Górecki, All This I Do For Glory utiliza de elementos típicos da discografia do músico norte-americano como um poderoso estímulo criativo. Entretanto, longe da repetição e autorreferência preguiçosa, o registro de seis faixas acaba mergulhando em um oceano de novas sonoridades, inspirações e temas conceituais.

Como indicado no texto de apresentação do trabalho, trata-se de “um raciocínio e exploração sobre as maquinações da ambição e do legado, um exame dos conceitos da vida após a morte”. São pouco mais de 40 minutos em que o saxofonista confessa ao público algumas de suas principais influências. Recortes, adaptações e fragmentos instrumentais que apontam para o Jazz, porém, incorporam novos gêneros e trilhas pouco convencionais. A tentativa de Stetson em “explicar” a obra de Aphex Twin, Autechre e outros nomes da música eletrônica de forma autoral.

Um bom exemplo disso está na criativa montagem de Between Water and Wind, terceira faixa do disco. Utilizando de microfones aproximados, Stetson transforma o movimento dos dedos, toques e saídas de ar em uma rica massa percussiva, detalhando um pano de fundo rítmico para o movimento da canção. Batidas e pequenas sobreposições quase matemáticas, por vezes íntimas do som produzido por Richard D. James durante toda a década de 1990 ou mesmo das ambientações eletrônicas do Radiohead pós-Kid A (2000).

A força das “batidas” acaba se revelando em diversos momentos ao longo do álbum. São interferências pontuais, caso da extensa The Lure of the Mine, faixa de encerramento do disco, ou mesmo encaixes estratégicos que orientam a concepção de músicas como Like Wolves on the FoldSpindrift, perfeitos exemplares do material produzido pelo saxofonista para a série New History Warfare. A busca declarada pela composição de um som enérgico, pulsante, como se Stetson assumisse o mesmo papel dos produtores que tanto o inspiram.

Primeiro registro autoral desde New History Warfare Vol. 3: To See More Light (2013), All This I Do For Glory se distancia de possíveis colaboradores para sobreviver como uma obra fechada, particular. Um produto das inquietações que há tempos perturbam (e inspiram) o trabalho do saxofonista estadunidense. Mais do que um experimento isolado dentro da extensa discografia de Stetson, cada uma das seis faixas do disco busca conforto em um conceito específico, ampliando os domínios do artista.

 


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