"Am_Par_Sis"

Sentidor

Ano: 2017
Selo: Sound and Colours / Geração Perdida
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Constantina, Vitor Araújo
Ouça: Pedreira, Ruínas
Nota: 8.5

Resenha: “Am_Par_Sis”, Sentidor

O ano é 2033. Corroída pelo tempo e coberta pelos escombros de diferentes conflitos e transformações sociais, a cidade do Rio de Janeiro funciona como abrigo para uma população cada vez mais escassa, triste. Sobreviventes em um futuro consumido pelo passado, desprovido de uma identidade cultural e sufocado por recordações de um período glorioso. Um cenário marcado pela desesperança, pós-apocalíptico, porém, atual, ponto de partida para a ficção política que o mineiro João Carvalho desenvolve entre as canções do caótico Am_Par_Sis (2017, Sound and Colours / Geração Perdida).

Mais recente álbum de inéditas do Sentidor, o registro de 11 faixas imagina o que aconteceria se Passarim, trabalho lançado em 1987 por Antônio Carlos Jobim, fosse redescoberto em uma versão futurística do Rio de Janeiro. Um cenário em que “as atuais revoltas políticas e sociais que o país vive se transformassem ao nível de guerra, deixando a cidade em ruínas”. Músicas que revelam a desconstrução não apenas da obra de Jobim, principal “instrumento” do disco, mas do som doce testado por Carvalho no último registro de inéditas, Memoro Fantomo_Rio Preto (2016).

Inaugurado pela ambientação soturna de Pedreira e Ruínas, Am_Par_Sis – o título é um anagrama para Passarim -, se revela por inteiro logo nos primeiros minutos. São vozes sampleadas, em loop, sintetizadores sujos e recortes eletrônicos que parecem trabalhados de forma a sufocar o ouvinte. Uma ponte para o conto descritivo lançado por Carvalho no encarte do disco. Colagens e ruídos claustrofóbicos que encolhem e crescem a todo instante, proposta que perturba, acolhe e joga com a interpretação do ouvinte durante toda a execução da obra.

Em um sentido oposto ao som esverdeado e temas “ecológicos” incorporados por Jobim no álbum de 1987 – vide Borzeguim e Brasil Nativo –, Am_Par_Sis trilha um caminho urbano, cinza. Sexta faixa do disco, a psicodélica Erva resume com naturalidade esse conceito. Sobreposições e vozes sujas que se articulam de forma caótica, tumultuada, gerando um propositado desconforto para o ouvinte. Blocos imensos de ruídos e temas eletrônicos, sonoridade que parece replicada mesmo no minimalismo de canções como Incêndio.

Hermético, o álbum projeta cada composição um poderoso alicerce para a faixa seguinte. Vozes, entalhes eletrônicos e distorções que se repetem de forma complementar, detalhando uma atmosfera homogênea, densa e familiar. Perceba como o canto obscuro de Pedreira serve de passagem para o experimentalismo apresentado em Ruínas. Entre Caminho do Pixo e Ritual Part 2, melodias sujas e referências que se completam. Fragmentos que refletem a necessidade de Carvalho em desenvolver cada música como parte de um único registro.

Do título referencial ao uso preciso dos samples, Am_Par_Sis dialoga com a obra de Tom Jobim sem necessariamente restringir a postura autoral de Carvalho. Um espaço onde reverência e transformação se completam a cada nova curva do disco, revelando um trabalho marcado pelo frescor e completo ineditismo do artista. Fórmulas inexatas que amarram passado, presente e futuro, indicativo do profundo amadurecimento e permanente senso de renovação que abastece a obra do Sentidor.

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