"Ambulante"

Ano: 2018
Selo: Sony Music
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Tássia Reis, Flora Matos e IZA
Ouça: Kaça, Vida Que Vale e Saudade
Nota: 7.5

Resenha: “Ambulante”, Karol Conká

Cinco anos, esse foi o tempo que Karol Conká levou para finalizar o sucessor do elogiado Batuk Freak (2013). Com produção assinada pelo conterrâneo Péricles Martins (Boss In Drama), Ambulante (2018, Sony Music) segue exatamente de onde a rapper curitibana parou durante o lançamento do primeiro álbum de estúdio, transformando pequenas conquistas, versos encorpados pelo discurso social e desilusões amorosas no alicerce criativo de uma obra perfumada pela música pop. Frações poéticas e rítmicas que ampliam de forma inteligente o material testado em Farofei e Lalá, algumas das canções mais conhecidas da artista.

Pode até tentar me imitar / Assume que odeia me amar / Você não consegue evitar / Você não consegue me rotular / Pra nos levantar, precisei tombar“, rima na inaugural Kaça, música em que preserva a essência ácida do material entregue há meia década, conceito que ganha ainda mais destaque no verso central da canção — “Eu não vou mudar / Nem me rotular / Original sem cópia“. São fragmentos marcadas pela autoafirmação e o claro desejo de seguir em frente, como se do posto conquistado em Batuk Freak, Conká fosse capaz de ir além.

Exemplo disso está na sequência formada por Bem Sucedida e Vida Que Vale. De um lado, uma canção em que reflete de maneira consciente sobre as próprias vitórias (“Sem pressa vou dar mais um passo / Deixa que eu mesma faço / E se me encher o saco / Vou descer o esculacho“), como um resgate pontual de tudo que vem sendo conquistado desde o início da carreira. No outro, uma colisão de rimas fortes em que amplifica a própria mensagem de forma transformadora, avançando criativamente (“Minhas frases mudam vidas / Porque eu pus minha vida em cada frase / Eu escrevo pra cicatrizar feridas / E pra te lembrar que a vida é o que vale“).

Com a chegada de Vogue do Gueto, música em que dialoga com a mesma base eletrônica de Azealia Banks e Missy Elliott, Conká e Martins abrem passagem para o lado mais acessível do disco. É o caso da minimalista Dominatrix, faixa guiada pela profusão de versos lascivos — “Eu domino essa sua tara / Eu sei que você gosta, me deixa te maltratar / Eu posso ver o prazer na sua cara / Te submeto, piso devagar“. A mesma rima provocativa ecoa com naturalidade em Suíte, canção marcada pela profunda entrega e desejo do eu lírico — “Tô a vontade me lambuza / Bota a mão por de baixo da blusa / Acaricia os meus mamilos / Mamilos (tão polêmicos)“.

Nos versos contemplativos de Saudade, instantes de confessa melancolia. “Você passou, sumiu num calor / Confesso que dentro do peito apertou / E eu que sempre achei que nosso lance ia durar“, sufoca em um misto de canto e rima que aponta para o mesmo pop brega de Duda Beat e Pabllo Vittar. Um som descompromissado, leve, conceito reforçado na completa melancolia de Desapego — “Olha o peso que isso trouxe / Histórias que nunca soube / Sensação de frustração que não me coube / O ontem registrado em poses / Não condiz com a sua realidade hoje“.

Para o encerramento do disco, Conká convida o ouvinte a se perder na poesia marofada de Fumacê, um R&B lisérgico que acaba servindo de passagem para a colorida mistura de ritmos que pontua o trabalho em Você Falou. São pouco mais de três minutos em que a rapper transforma as próprias desilusões em música — “Lembra quando eu te falei / Te chamei pra vir junto também / Você não quis me escutar / Deixou o ego te cegar / Você nunca quis enxergar o meu bem“. Um misto de dor e libertação que tinge com sobriedade os últimos instantes do álbum.

 


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