"American Dream"

Ano: 2017
Selo: DFA / Columbia
Gênero: Eletrônica, Dance, Pós-Punk
Para quem gosta de: The Rapture e Hot Chip
Ouça: Tonite, Other Voices e American Dream
Nota: 8.8

Resenha: “American Dream”, LCD Soundsystem

Poucos eventos recentes no mundo da música foram tão emblemáticos quanto a despedida do LCD Soundystem em 2011. Em um espetáculo que durou mais de duas horas de duração no Madison Square Garden, em Nova York, James Murphy e um time de músicos — entre eles, integrantes do Arcade Fire e o cantor/comediante Reggie Watts —, passaram por grande parte da discografia do projeto nova-iorquino, resultando em um curioso retrospecto de todas as transformações que tomaram conta da cena alternativa/eletrônica dos Estados Unidos durante parte expressiva da primeira década dos anos 2000.

Depois disso, silêncio.

Ainda que Murphy tenha sido convidado a participar de diferentes projetos nos últimos anos, como a produção do elogiado Reflektor (2013), quarto álbum de estúdio do Arcade Fire, e o curioso Love is Lost (Hello Steve Reich Remix), experimento apresentado como parte do EP The Next Day Extra (2013), de David Bowie, em se tratando do LCD Soundsystem, pouco foi oficialmente apresentado ao público. Salve a edição física do show de despedida — intitulado The Long Goodbye: LCD Soundsystem Live at Madison Square Garden (2014) —, um possível regresso e novo registro de inéditas da banda parecia improvável, distante. Pelo menos até agora.

Entregue ao público depois de um longo período de espera, incontáveis boatos, fragmentos como a natalina Christmas Will Break Your Heart, e diversas apresentações canceladas para que Murphy pudesse se concentrar em estúdio, American Dream (2017, DFA / Columbia) mostra que o LCD Soundsystem continua tão relevante quanto no início de carreira. Produzido em um intervalo de quase dois anos, o quarto registro de inéditas do grupo nova-iorquina está longe de ser interpretado como um mero caça-níquel oportunista. Trata-se de um novo (e necessário) capítulo dentro da curta discografia da banda, como se o produtor voltasse para completar criativamente as lacunas da própria obra.

Como indicado durante o lançamento dos dois primeiros singles do disco, Call The Police e a climática faixa-título, American Dream encontra no pós-punk produzido no final dos anos 1970 o principal componente criativo para abastecer o trabalho. Das guitarras e batidas dançantes que crescem em Other Voices, típicas do Talking Heads em Fear of Music (1979) e Remain in Light (1980),passando pelos sintetizadores atmosféricos à la Soft Cell em I Used To, até alcançar a densa How Do You Sleep?, música que replica a boa fase do Public Image Ltd. em Metal Box (1979), cada fragmento do presente álbum encontra no passado um poderoso alicerce.

Sem pressa, Murphy e um time de músicos formado por Pat Mahoney, Nancy Whang, Tyler Pope, Al Doyle, Gavin Russom, Matt Thornley e Korey Richey se concentram na produção de um som tão provocante, quanto intimista, caótico e dançante, brincando com os contrastes mesmo dentro de cada composição. São atos espaçados, longos, com faixas que ultrapassam os dez minutos de duração – vide a derradeira Black Screen. Instantes em que o músico nova-iorquino detalha os próprios tormentos sem necessariamente se distanciar das pistas, base para Tonite, um reflexo sobre a industria da música, ou mesmo a punk Emotional Haircut, faixa que soa como um esboço cru do material apresentado no primeiro disco do LCD Soundsystem.

Entre versos que detalham a amizade e profundo fascínio por David Bowie (“Eu te devo um jantar, cara / Eu devo uma coisa a você / Você falou comigo / Como eu estava dentro“), a relação desgastada com o ex-parceiro de selo, o produtor Tim Goldsworthy (“Lembro de quando éramos amigos / lembro de quando eu te chamava de ‘amigo’“), além de letras marcadas pelo forte teor político/social, caso de ​Call the Police e da própria faixa-título do álbum, Murphy sustenta nos versos de American Dream a passagem para um de seus trabalhos mais complexos. O típico caso de uma obra que parece maior a cada nova audição, efeito direto do universo de referências, reflexões particulares e texturas eletrônicas que se escondem entre as brechas do registro.

 

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