"American Utopia"

Ano: 2018
Selo: Nonesuch / Todo Mundo
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: David Bowie e Brian Eno
Ouça: Everybody's Coming to My House
Nota: 7.5

Resenha: “American Utopia”, David Byrne

David Byrne é um desses personagens incansáveis do mundo da música. Dono de uma extensa produção, o cantor e compositor escocês/norte-americano passou os últimos dez anos se revezando em uma sequência de obras colaborativas. Trabalhos como o memorável Everything That Happens Will Happen Today (2008), reencontro criativo com o parceiro de longa data, o músico Brian Eno, além de álbuns curiosos, caso do conceitual Here Lies Love (2010), com Fatboy Slim, e Love This Giant (2012), assinado em parceria com a cantora St. Vincent.

Interessante perceber em American Utopia (2018, Nonesuch / Todo Mundo), 11º álbum pós-Talking Heads e primeiro trabalho solo em 14 anos, o mesmo aspecto colaborativo detalhado nos últimos três registros de inéditas. Ainda que o nome do músico apareça estampado na capa do disco, do momento em que tem início, em I Dance Like This, ao fechamento, com Here, Byrne surge cercado por representantes vindos de diferentes campos da música alternativa.

Exemplo disso está na forte interferência de Daniel Lopatin. Mais conhecido pelo trabalho como Oneohtrix Point Never, o produtor norte-americano passeia pelo disco de forma curiosa, detalhando ambientações eletrônicas e pequenas paisagens instrumentais que transportam a obra de Byrne para diferentes campos criativos. São ruídos e inserções minuciosas, como na climática This Is That, faixa que sutilmente invade o mesmo território conceitual da britânica ANOHNI, com quem Lopatin colaborou em Hopelessness (2016).

Surgem ainda nomes como o cantor e compositor Sampha, o percussionista brasileiro Mauro Refosco (Atoms For Peace, Red Hot Chili Peppers), o pianista Thomas Bartlett (Doveman), além de colaboradores pontuais, caso do produtor Jam City e o músico Jack Peñate. Nada que se compare ao cuidado de Brian Eno naquela que é claramente a melhor composição do disco: Everybody’s Coming to My House. São pouco mais de três minutos em que todo esse time de artistas é sutilmente orquestrados pelo músico britânico, fazendo da canção uma explosão criativa de cores e ritmos.

A mesma pluralidade explícita na construção dos arranjos e seleção dos convidados acaba se refletindo na poesia do disco. São composições pontuadas pela inserção de experiências intimistas, debates políticos, temas satíricos e reflexões que passeiam por diferentes aspectos do cotidiano de forma sempre sorridente. Um ziguezaguear de ideias e referências, como uma extensão do mesmo universo poético que vem sendo detalhado pelo músico desde o clássico More Songs About Buildings and Food (1978).

De essência otimista, American Utopia nasce como parte do projeto multimídia Reasons to Be Cheerful. Trata-se de uma plataforma montada para apresentar estratégias transformadoras, atividades culturais, pensadores e pesquisas que contrapõe o cenário pessimista em que vivemos. Um esforço coletivo entre Byrne e o conterrâneo escocês Rodaidh McDonald (Adele, The XX), produtor do disco, em fazer de cada composição um objeto precioso, mágico, costurando melodias ensolaradas e versos descomplicados que se projetam de forma grandiosa até o encerramento do álbum.

 


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