"Anastácia"

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: MPB, Jazz, Afrobeat
Para quem gosta de: Xênia França e Metá Metá
Ouça: Peixe, Babalaô e Anastácia
Nota: 8.0

Resenha: “Anastácia”, Clara Anastácia

A herança cultural do continente africano, feminismo negro e religiosidade. Esses são alguns dos elementos conceituais e estéticos que servem de sustento ao minucioso Anastácia (2018, Independente), primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora carioca Clara Anastácia. Uma obra que costura passado e presente dentro de um mesmo universo criativo, fazendo da ancestralidade dos povos escravos a base para um registro de essência futurista, transformador.

Inaugurado pela psicodelia tribal de Peixe, composição que se espalha em um intervalo de mais de sete minutos de duração, Anastácia sintetiza na riqueza e subjetividade dos versos a passagem para um universo mágico. “Sou mulher, posso ser peixe / Minha mãe que me disse assim / Cuidado quando a noite boceja / O rio finge que vai dormir“, canta em meio a guitarras carregadas de efeito, batidas e ruídos, indicativo do som vasto que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra.

Composições que oscilam entre instantes de parcial recolhimento e atos volumosos, propositadamente caóticos. Exemplo disso está na sequência formada por Pinho Sol e Babalaô. De um lado, uma canção que brinca com a sutileza dos arranjos e versos, administrando cada elemento de forma precisa. Na sequência, um exercício que parece maior a cada nova audição, efeito do poderoso cruzamento entre a voz limpa de Anastácia e as guitarras do produtor João Werneck.

A mesma força ecoa com naturalidade na faixa-título do disco. Um rock cru e levemente empoeirado, como um diálogo de Anastácia com a obra de veteranos como Novos Baianos e Gal Costa. “Preta não vem pra ser calada / Eu vim aqui pra gritar bem alto / Eu tô aqui é pra cantar“, brada enquanto a guitarra de Werneck encolhe e cresce a todo instante. Uma criativa sobreposição de ideias e versos fortes que orientam a experiência do ouvinte até a última nota da canção.

Com a chegada de Jurema, quinta faixa do disco, a busca por um som colorido e grandioso na montagem dos versos, como uma extensão clara de tudo aquilo que vinha sendo detalhado desde a inaugural Peixe. Fragmentos pontuais, sempre precisos, como um complemento à base rítmica da canção. Um preparativo claro para o material que chega logo em sequência, na derradeira Naná, música adornada por referências religiosas, apontando para o continente além-mar, proposta que muito se assemelha ao trabalho de Xênia França no primeiro álbum de estúdio da cantora.

Forte do primeiro ao último verso, Anastácia mostra a completa versatilidade e entrega da cantora carioca e seus parceiros de banda — Gustavo Muniz (baixo), Leonardo Dias (bateria e Percussões), Eduardo Nogueira (drum machine), além, claro, do já citado João Werneck (guitarra). São melodias e versos que se entrelaçam de maneira complementar, revelando ao público um único bloco de experiências que costura diferentes décadas, possibilidades e ritmos de forma particular.

 


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