"Apego"

Lutre

Ano: 2017
Selo: Independente
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Ventre e Lupe de Lupe
Ouça: Mudo, Apego
Nota: 8.3

Resenha: “Apego”, Lutre

Sem pressa, guitarras e melodias instáveis da inaugural Céu detalham uma curiosa paisagem instrumental, estabelecendo possíveis limites e regras sentimentais que orientam o primeiro álbum de estúdio do power trio goiano Lutre, Apego (2017, Independente). Ruídos, batidas, a linha de baixo pulsante e guitarras versáteis que servem de base para a poesia dolorosa que se espalha pelo interior da composição — “Não precisa chorar / Foi você quem escolheu / ‘Rancar’ pétala por pétala / E no fim fingir que esqueceu“.

Longe de buscar conforto em um gênero ou sonoridade específica, o trabalho de nove faixas assinado por Marcello Victor (guitarra e vocal), Jefferson Radi (bateria) e Chrisley Hernan (baixo) flutua por entre gêneros, incorporando mais de cinco décadas de referências de forma propositadamente torta. Uma colisão de ideias que atravessa o rock alternativo dos anos 1990 e 2000 até alcançar o presente cenário nacional, esbarrando na obra de artistas como Lupe de Lupe e, principalmente, Ventre.

De fato, a comparação com o trabalho da Ventre vai muito além da simples citação. Mesmo com gravações nos estúdios Cafofo e Complexo, ambos localizados em Goiás, parte expressiva do presente álbum foi concebida durante uma estadia da Lutre no estúdio Swing Cobra, no Rio de Janeiro. Uma intensa troca de experiências entre o trio goiano e os músicos Gabriel Ventura, Larissa Conforto e Hugo Noguchi, este último, responsável pela mixagem do álbum junto de Braz Torres Neme.

Um bom exemplo dessa relação entre o Lutre e a banda carioca está na intensa composição de Mudo, terceira faixa do disco. Entre vozes em coro, guitarras crescentes e o baixo marcante de Hernan, a letra confessional de Marcello Victor se espalha com crueza e emoção, mergulhando na mesma temática de Peso do Corpo, Carnaval e demais canções apresentadas no primeiro álbum da Ventre. “De tanto me importar/ Um dia eu vou explodir / Sentimentos vão transbordar em mim“, canta o vocalista em um misto de angústia e libertação.

Doloroso e intimista do primeiro ao último verso, Apego, como o próprio título indica, utiliza de memórias recentes, sentimentos e relacionamentos instáveis como o principal componente para a formação das canções. “Mas deixa eu mostrar que eu gosto de ti / E eu posso provar que você me traz uma falta de sanidade que eu preciso pra viver“, desaba Victor na faixa-título do disco, um resumo sorumbático do material produzido pela banda durante toda a execução do trabalho.

Entre versos declamados, marca da intimista Salvador, e instantes de pura urgência, caso de É Assim, Apego mostra a necessidade do trio goiano em se reinventar, brincando com as possibilidades a cada nova curva do disco. Do pós-rock em Meu Lugar à explosão de ruídos e guitarras rápidas em Mudo, música dialoga com a boa fase do Queens Of The Stone Age, difícil estabelecer um ponto de maior segurança e morosidade dentro do álbum, indicativo do completo domínio da banda sobre a obra.

 

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