"Arca"

Ano: 2017
Selo: XL
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Björk e ANOHNI
Ouça: Desafío e Sin Rumbo
Nota: 8.6

Resenha: “Arca”, Arca

A imprevisibilidade sempre foi a principal marca do trabalho de Alejandro Ghersi. Basta voltar os ouvidos para toda a sequência de obras produzidas pelo venezuelano nos últimos anos. Trabalhos como a sequência formada por Xen (2014) e Mutant (2015), mixtapes aos moldes da experimental &&&&& (2013), e até mesmo registros produzidos para outros artistas, caso da parceria com FKA Twigs em LP1 (2014) e o encontro com Björk no confessional Vulnicura (2015). Rupturas e experimentos que voltam a servir de estímulo para o terceiro e mais recente álbum de inéditas do produtor.

Entregue ao público poucos meses após o lançamento da mixtape Entrañas (2016), o autointitulado registro de 13 faixas detalha de forma sensível e dolorosa a voz antes sufocada do artista. Versos e lamentos intimistas, sempre cantados em espanhol, como um convite a provar das mesmas emoções, medos e delírios de Ghersi. Um parcial distanciamento da eletrônica efêmera testada nos dois primeiros discos de estúdio e a passagem para um ambiente deliciosamente acolhedor, como uma continuação do material produzido em parceria com Björk.

Consumido pela dor, Ghersi faz de cada composição ao longo do disco um objeto de pura exposição sentimental. “Você procurou por mim / E eu encontrei você / O seu gosto em minha boca … Eu não quero viver prisioneiro da melancolia … Que decepção / Sua terna traição“, canta na amarga Fugaces. São pouco mais de 40 minutos de duração em que Arca reflete sobre diversos aspectos da própria vida amorosa. Uma verdadeira coleção de tormentos musicados. Versos que ultrapassam o universo particular do artista e acabam dialogando com o próprio público.

Não havia nenhum aviso desta vez / E o que a dor / Que amargura … De longe eu vou sentir sua falta / Caminho sem rumo“, desaba em Sin Rumbo, perfeita representação da poesia melancólica e intimista que rege o trabalho. Em Desafío, décima faixa do disco, uma extensão apurada do mesmo sofrimento. “Há um abismo dentro de mim … Eu derramo todo o meu amor / Eu vou ficar sozinho aqui / Me dê o seu calor“, canta enquanto sintetizadores e batidas contidas se espalham ao fundo da canção, reforçando a proposta sorumbática que movimenta o disco.

Como indicado durante o lançamento de Piel, faixa de abertura do disco e composição escolhida para apresentar o trabalho, Arca se concentra na produção de uma atmosfera essencialmente minimalista. Salve exceções, como a eletrônica pulsante de Whip, música concebida a partir do barulho de chicotes, Ghersi limita ao máximo o uso dos instrumentos. São ruídos e interferências pontuais, conceito que acaba servindo de estímulo para o ambiente claustrofóbico, por vezes perturbador, da obra.

Tocante, o terceiro álbum de Arca indica um claro amadurecimento no som produzido pelo músico venezuelano. Desenvolvido em um intervalo de mais de um ano, o registro utiliza de confissões e conflitos do próprio artista como um estímulo para a composição dos versos. Músicas que passeiam pela mente atormentada Ghersi, crescem no minimalismo sufocante dos arranjos e temas instrumentais e seguem até o perturbador projeto gráfico do disco, trabalho que conta com a assinatura do parceiro de longa data Jesse Kanda.

 

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