"Aviary"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: Dream Pop, Experimental, Art Pop
Para quem gosta de: Jenny Hval e Julianna Barwick
Ouça: I Shall Love 2 e Turn The Light On
Nota: 8.0

Resenha: “Aviary”, Julia Holter

Não espere obter uma resposta imediata ao mergulhar nas canções do novo registro autoral de Julia Holter. Em Aviary (2018, Domino), quinto álbum de estúdio da cantora e compositora norte-americana, cada elemento do disco se revela ao público em uma medida própria de tempo, sem pressa. São variações orquestrais, vozes em coro e melodias tortas que refletem o completo desejo da musicista em brincar com a desconstrução de antigos padrões e fórmulas instrumentais. Um misto de delírio, incerteza e permanente desejo de renovação.

Ambicioso quando próximo de outros registros produzidos por Holter nos últimos anos, Aviary exige tempo até ser totalmente absorvido pelo ouvinte. Trata-se de uma obra extensa: são 15 músicas que se espalham em um intervalo de aproximadamente 90 minutos de duração. Composições marcadas pelo uso de pequenas abstrações, colagens instrumentais, ruídos e vozes atmosféricas que mudam de direção a todo instante, como uma estranha colisão de ideias que passa por alguns dos trabalhos mais significativos da cantora, caso de Tragedy (2011), Ekstasis (2012) e, principalmente, o material entregue no soturno Loud City Sound (2013).

Do momento em que tem início, na apoteótica Turn The Light On, passando pela construção de músicas como Chaitius, com seus mais de oito minutos de ruídos, ou mesmo na atmosfera disforme de Underneeth The Moon, Holter parece inclinada a testar os próprios limites dentro de estúdio. Orquestrações soturnas e pequenas interferências estéticas que a todo momento distanciam a artista do refinamento melódico explícito no antecessor Have You in My Wilderness (2015). De fato, até alcançar a derradeira Why Sad Song, Holter e os parceiros de banda se concentram em desconstruir tudo aquilo que foi testado no álbum anterior.

Mesmo quando se permite provar de um material “acessível”, como na delicada I Shall Love 2 e Words I Heard, dois primeiros singles do disco, Holter se distancia de uma estrutura regular, colidindo elementos recortados de diferentes núcleos criativos. Da música de câmara ao jazz, das ambientações cinematográficas de Jean-Michel Jarre ao pop estranho de Kate Bush, tudo se revela de maneira incerta em Aviary. Um permanente cruzamento de ideias e ritmos que se reflete na chegada de um time seleto de músicos, entre eles, Dina Maccabee (violino, viola e voz), Andrew Tholl (violin), Tashi Wada (sintetizadores e gaita de fole), Sarah Belle Reid (tropmpete), Devin Hoff (baixo) e Corey Fogel (percussão).

Uma vez dentro desse universo guiado pela incerteza, Holter entrega ao público desde composições marcadas pelo minimalismo dos elementos, como em In Gardens’ Muteness e Voce Simul, até faixas volumosas, produto da criativa sobreposição dos arranjos e vozes. É o caso da crescente Whether, faixa menos extensa do disco, e a já citada Everyday is an Emergency, uma das canções mais insanas já compostas pela cantora. Fragmentos que se espalham sem ordem aparente, como um complemento à poesia do disco, em geral, alimentada pelos diferentes aspectos do amor.

Turbulento e acolhedor, insano e minucioso, Aviary parece jogar com a experiência do ouvinte durante toda sua execução. É como se Holter costurasse blocos de ruídos, ambientações orquestrais e vozes operísticas de forma sempre provocativa. Longe da atmosfera ensolarada que parecia iluminar as canções do antecessor Have You in My Wilderness, agora somos convidados a se perder em um território de pequenas incertezas, tateando em meio a formas abstratas e melodias tortas que se moldam a cada novo verso ou movimento lançado pela cantora.

 


2 thoughts on “Resenha: “Aviary”, Julia Holter

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