"Aytche"

Joseph Shabason

Ano: 2017
Selo: Western Vinyl
Gênero: Jazz, Experimental
Para quem gosta de: Destroyer e Colin Stetson
Ouça: Chopping Wood e Westmeath
Nota: 7.5

Resenha: “Aytche”, Joseph Shabason

Em mais de uma década de carreira, o saxofonista Joseph Shabason acabou encontrando em diferentes projetos da cena canadense, caso do grupo de indie pop DIANA e, principalmente, o Destroyer, com quem vem colaborando desde o maduro Kaputt (2011), a possibilidade de experimentar e testar os próprios limites dentro de estúdio. Um exercício minucioso que se completa com o lançamento do primeiro álbum do jazzista em carreira solo, Aytche (2017, Western Vinyl).

Produto da necessidade de Shabason em ampliar os próprios domínios, Aytche detalha cada composição como um experimento isolado, precioso. Instantes em que o músico norte-americano vai do som atmosférico na inaugural Looking Forward to Something, Dude, ao completo delírio em Smokestack, música que soa como uma tentativa do saxofonista em emular as distorções sujas e camadas de ruídos testados por Lou Reed em Metal Machine Music (1975).

Entretanto, importante reforçar que mesmo a lenta desconstrução do trabalho não oculta a forte relação entre as faixas. Entre ruídos, melodias atmosféricas e sintetizadores submersos, Shabason utiliza do próprio saxofone como um elemento de conexão entre as faixas. Um ziguezaguear de ideias que prova de diferentes sonoridades ao longo do trabalho, porém, em nenhum momento ultrapassa um limite conceitualmente definido pelo músico canadense.

Feito para ser desvendado pelo público, Aytche oculta mais do que parece revelar. Exemplo disso está na melódica Westmeath. Em um profundo diálogo com a música ambiente produzida na segunda metade dos anos 1970, a canção dominada pelo uso de sintetizadores etéreos detalha um conjunto de vozes, samples e ruídos microscópicos que se escondem em meio a camadas de ambientações eletrônicas, lembrando um encontro entre Oneohtrix Point Never e o grego Vangelis.

Em Chopping Wood, oitava faixa do disco, farelos instrumentais que se espalham pelo interior da canção. Em um intervalo de apenas quatro minutos, Shabason revela pianos, captações caseiras, melodias etéreas, sintetizadores e batidas abstratas que se conectam diretamente ao saxofone inquieto do músico. Um lento desenrolar dos elementos, como se cada fragmento instrumental fosse trabalhado como peça importante para a construção da faixa.

Princípio de uma obra em plena formação, Aytche parece longe de possíveis regras ou limitações artísticas, como se Shabason apenas navegasse pelo interior do registro sem necessariamente provar de um conceito específico. São pouco mais de 40 em que o ouvinte é guiado em essência pela incerteza dos atos, fazendo de cada composição no decorrer do disco a passagem para um território completamente novo, instável, feito para ser desbravado.