"Azul Moderno"

Ano: 2018
Selo: Risco
Gênero: MPB, Alternativa, Indie
Para quem gosta de: Céu e Anelis Assumpção
Ouça: Azul Moderno, Mil Mulheres e Mira
Nota: 9.0

Resenha: “Azul Moderno”, Luiza Lian

A inevitável fluidez da passagem do tempo, religiosidade, versos consumidos pela saudade e a imensidão da alma feminina. Em Azul Moderno (2018, Risco), terceiro e mais recente álbum de estúdio de Luiza Lian, cada fragmento do registro oculta e, ao mesmo tempo, revela um sem-número de experiências particulares, memórias e conflitos intimistas da cantora e compositora paulistana. Composições de essência contemplativa, sempre tocantes, como sussurros poéticos que se moldam de forma a dialogar com as vivências de qualquer indivíduo.

Último capítulo da sequência de obras que vem sendo produzidas desde o autointitulado debute de 2015, o sucessor do elogiado Oyá Tempo (2017) preserva a essência eletrônica do registro entregue há poucos meses, porém, dentro de um novo revestimento estético. Frações poéticas e instrumentais que se espalham em meio a ambientações sintéticas, ruídos, samples e batidas quebradas. Um som colorido, sempre detalhista, pano de fundo para a poesia meticulosa que orienta a experiência do ouvinte até a homônima faixa de encerramento do disco.

Olho pra estrada, solto a sua mão / Agradeço a caminhada / Mas eu vou em outra direção / Me perdoe pelas palavras cruéis / Mas doeu demais”, canta enquanto violões, a percussão econômica e sintetizadores se espalham sem pressa, correndo ao fundo da composição. Um indicativo da atmosfera melancólica, ainda que libertadora, concebida por Lian em parceria com o produtor Charles Tixer, colaborador desde o álbum anterior, além, claro, do cantor e compositor Tim Bernardes, co-responsável pela produção e arranjos da obra.

Composições em que a ancestralidade e essência feminina transborda desmedida, como em Mil Mulheres (“Nem deu tempo para te contar / Que aquela hora, transando com você / Eu senti que transava uma multidão / Que eu era mil mulheres também“), ou mesmo instantes em que angústia do eu lírico tinge com incerteza a construção dos versos, conceito reforçado na agridoce Geladeira (“Bota o coração na geladeira / Uma outra hora morreria por alguém / Na janela espera sem certeza / No seu abraço não tem ninguém“). Representações pontuais do explícito amadurecimento criativo e delicado avanço poético da cantora e sua principal parceira de composição, Leda Cartum.

Dentro desse universo mágico, Lian convida o ouvinte a se perder em meio a paisagens metafóricas (Iarinhas), composições guiadas pela forte espiritualidade (Sou Yabá, Santa Bárbara) e poemas simples que se entrelaçam de forma a revelar um intrincado labirinto poético (Mira). Memórias de um passado ainda recente, fresco, como na inaugural Vem Dizer Tchau, faixa que sustenta na poesia detalhista uma estrutura quase imagética, como se um ambiente solitário e a sensação de abandono fosse sentida a cada novo verso — “Foi embora antes da cidade dormir / Hoje eu me lembrei do que aconteceu / Sobra meses frio, o macarrão de ontem / Não se despediu e o resto se dispersou“.

Concebido no decorrer de um extenso período de gestação que teve início antes mesmo do lançamento de Oyá Tempo, Azul Moderno é um trabalho que parece brincar com a própria estrutura, disfarçando no minimalismo das vozes e fórmulas instrumentais a passagem para um registro imenso. Melodias e versos sensíveis que se projetam de forma sempre inexata, como se Luiza Lian pervertesse a música pop e a própria identidade de forma a estimular a construção de uma obra viva, maior e mais complexa a cada nova audição.

 


2 thoughts on “Resenha: “Azul Moderno”, Luiza Lian

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