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Resenha: “Beijos”, Filipe Alvim

Artista: Filipe Alvim
GĂȘnero: Indie, Lo-Fi, Alternativo
Acesse: https://filipealvim.bandcamp.com/

Foto: Tamires Orlando

RomĂąntico, cafona, sensĂ­vel. Em Beijos (2016, Pug Records), primeiro ĂĄlbum de inĂ©ditas em trĂȘs anos, o cantor e compositor mineiro Filipe Alvim faz de cada composição ao longo do registro um fragmento marcado pela confissĂŁo. Entre sussurros melancĂłlicos (“VocĂȘ pensa que estĂĄ bom / Mas podia estar melhor”) e versos essencialmente intimistas (“VocĂȘ tem / O poder / Sobre mim”), a construção de um trabalho que parece feito para grudar na cabeça do ouvinte.

Inaugurado pelos dramas e versos atormentados de Vida Sem Sentido, faixa de abertura do disco, o sucessor de Zero EP (2013) mais uma vez posiciona Alvim como personagem central de uma obra marcada pela desilusão. Enquanto os arranjos de guitarra se desmancham lentamente, revelando um som empoeirado, íntimo dos trabalhos de Mac DeMarco e outros romùnticos do rock atual, uma solução de versos amargos aponta a direção seguida em grande parte do trabalho.

Dividido entre mĂșsicas rĂĄpidas e versos arrastados, sempre dolorosos, Alvim joga com os sentimentos – dele e do prĂłprio ouvinte. SĂŁo versos curtos, sequĂȘncias de duas ou trĂȘs palavras, como se o cantor brincasse com o significado oculto em cada uma das cançÔes. DeclaraçÔes de amor, medos e delĂ­rios que se entrelaçam em meio ao movimento rĂĄpido das guitarras, tĂŁo Ă­ntimas do pop rock dos anos 1980, quanto de novatos como Connan Mockasin e SĂ©culos Apaixonados.

“Ela Ă© poderosa / Me fascina / Ela Ă© poderosa / Me deixa ficar”, desaba em Poderosa, mĂșsica que flutua entre a submissĂŁo e a libertação do eu lĂ­rico. Em Jaula, sexta faixa do disco, retalhos poĂ©ticos e pequenas indecisĂ”es – “NĂŁo perde / NĂŁo volta / NĂŁo cola / Amassa / Abafa / Sufoca”. Na rĂĄpida Cama Redonda, uma letra que se divide entre o tĂ©dio (“Nesse bode de hoje eu fiquei”) e a melancolia (“Perdi o gosto das coisas”). Diferentes conflitos de um mesmo personagem.

Faixa que mais se distancia dessa universo, a ensolarada Miragem talvez seja o grande ponto de acerto do trabalho. Enquanto guitarras e melodias eletrĂŽnicas dançam na cabeça do ouvinte, nos versos, Alvim surge esperançoso, quase sorridente. “O que eu preciso Ă© de uma estrada quente / Pra quem sabe que correr Ă© / Tanto faz se eu nĂŁo parar / Tanto faz”, canta, corrompendo a angĂșstia estampada nos primeiros versos da mesma canção – “O que eu tenho Ă© uma casa fria / Onde o vento bate e faz estrago”.

Cravejado de hits – vide mĂșsicas como Poderosa, Miragem e Vida Sem Sentido –, Beijos reflete o claro amadurecimento de Filipe Alvim em relação ao trabalho apresentado hĂĄ trĂȘs anos. Ainda que a atmosfera “caseira” do trabalho seja a mesma, distanciando o registro de uma polidez comercial, Ă­ntima do grande pĂșblico, difĂ­cil nĂŁo ser arrastado pela sequĂȘncia de confissĂ”es romĂąnticas, versos atormentados e guitarras versĂĄteis que abastecem o disco do primeiro ao Ășltimo instante.

 

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Beijos (2016, Pug Records)

Nota: 8.2
Para quem gosta de: Duplodeck, Mac DeMarco e LĂȘ Almeida
Ouça: Miragem, Vida Sem Sentido e Poderosa

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