"Beyondless"

Ano: 2018
Selo: Matador
Gênero: Rock Alternativo, Pós-Punk
Para quem gosta de: Savages e Preoccupations
Ouça: Catch It e Take It All
Nota: 8.5

Resenha: “Beyondless”, Iceage

A jovialidade explicita nos inaugurais New Brigade (2011) e You’re Nothing (2013) pode ter ficado para trás, entretanto, o claro amadurecimento na composição dos arranjos e, principalmente, versos assinados por Elias Bender Rønnenfelt trouxe novo significado (e frescor) ao som produzido pelo Iceage. Do punk sujo dos primeiros discos, a ponte para um ambiente claustrofóbico, denso e cada vez mais pessoal, cuidado que se reflete de maneira explícita no quarto álbum de inéditas da banda dinamarquesa, Beyondless (2018, Matador).

Onde antes brotavam versos curtos e niilistas, vide a crueza detalhada em faixas como Collapse e Broken Bones, hoje crescem poemas lentos e angustiados, sempre intimistas. “Eu disse que você precisa disso, você precisa disso, você precisa disso novamente / Confie em mim, essas emoções arbitrárias nunca te deixarão transcender / Faça-me verdadeiro“, clama a voz embriagada de Catch It, música em que Rønnenfelt deixa crescer o eu lírico melancólico que serve de base para toda a execução do trabalho.

São versos consumidos em essência pela dor, instantes de paixão doentia, medo, abandono e lento distanciamento dos personagens. Uma poesia triste que ganha forma desde a música de abertura do trabalho, Hurrah (“Porque não podemos parar de matar / E nós nunca vamos parar de matar“), e segue até a produção da autointitulada faixa de encerramento (“Se você quiser chorar, então chore aos meus pés / Mas se você acha que eu sou esse pilar que você precisava / Acredite, querida, não sou eu“).

Tamanha coerência e forte aproximação entre as faixas está longe de parecer um novidade dentro da curta discografia do Iceage. De fato, grande parte dos elementos incorporados ao presente álbum foram testados durante o lançamento do antecessor, Plowing Into the Field of Love (2014). Basta voltar os ouvidos para músicas como The Lord’s Favorite, How Many e grande parte do (maduro) repertório montado no último disco e para perceber como ele se reflete em com naturalidade nas canções de Beyondless.

Do pós-punk desconstruído, flerte com o country e glam rock que invade Thieves Like Us e Take It All, passando pela inserção de metais em The Day the Music DiesPain Killer, essa última, colaboração com a cantora Sky Ferreira, Beyondless segue exatamente de onde o quarteto dinamarquês parou há quatro anos. A diferença está na forma como camadas sutis de distorção, vozes ecoadas, ruídos e novos instrumentos se acumulam por entre as brechas do álbum, transportando o som produzido pela banda para um novo território criativo.

Claramente pensado para as apresentações ao vivo do quarteto, Beyondless, diferente dos trabalhos que o antecedem, faz de cada elemento um objeto de merecido destaque. São poemas catárticos, sempre emocionais e capazes de dialogar com uma parcela ainda maior do público. Instantes de puro romantismo, dor e libertação confessa que se conectam diretamente ao denso bloco de experiências instrumentais detalhadas pela banda da primeira à última nota.

 


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