"Big Fish Theory"

Ano: 2017
Selo: ARTium / Blacksmith / Def Jam
Gênero: Hip-Hop, Rap, Eletrônica
Para quem gosta de: Danny Brown e Kendrick Lamar
Ouça: Big Fish, Yeah Right e Rain Comes Down
Nota: 8.8

Resenha: “Big Fish Theory”, Vince Staples

É melhor não se apegar. Dois anos após o lançamento do sombrio Summertime ’06 (2015), trabalho em que reflete sobre a infância problemática e o papel como membro de uma gangue de adolescentes, Vince Staples amplia o próprio território criativo com o lançamento do intenso Big Fish Theory (2017, ARTium / Blacksmith / Def Jam). Um complexo debate sobre a necessidade de amadurecer, provar de diferentes ritmos — Techno, House, Footwork —, e sustentar na flexibilidade das rimas a construção de uma nova identidade musical.

Parte dessa necessidade de mudança e frequente transformação vem do próprio conceito explorado pelo rapper ao longo do registro. Ancorado na metafórico falácia de que um peixe só cresce de acordo com o tamanho de aquário em que está inserido, Staples cria um curioso paralelo sobre o próprio universo e as limitações impostas à comunidade negra/marginalizados dos Estados Unidos. Canções que discutem o caos cotidiano (Crabs in a Bucket), a comercialização do Hip-Hop (Yeah Right) e diferentes conflitos internos (Big Fish).

O mesmo catálogo de versos e temas explorados com naturalidade pelo rapper desde o maduro Hell Can Wait EP, de 2014, porém, reforçados pelo completo amadurecimento na poesia do artista norte-americano. Um cuidado que se revela logo nos primeiros segundos do disco, durante a construção de Crabs in a Bucket (“Não pareceu adorável na tela da TV? / Batalhar com o homem branco dia a dia“), mas que acaba crescendo à medida que o jogo de batidas rápidas, quebras bruscas e ambientações instáveis parecem forçar a rima de Staples a explorar novos territórios.

Embora protagonista da obra, Staples faz de cada instante no interior do disco a passagem para um grupo de produtores, músicos, vozes e diferentes representantes da música estadunidense. São nomes como Justin Vernon (Bon Iver) e Kilo Kish, responsáveis pela já citada faixa de abertura do álbum; em Yeah Right, um encontro entre Flume e SOPHIE, este último, também responsável pela frenética SAMO. Surgem ainda nomes como Damon Albarn (Blur) e um time seleto de representantes da cena eletrônica, claro reforço na arquitetura sintética do disco.

Para a composição dos versos e vozes de apoio que recheiam o trabalho, a fina interferência de diferentes representantes do Hip-Hop norte-americano. De Kendrick Lamar, colaborador na ótima Yeah Right, passando pela rápida atuação de A$AP Rocky em SAMO e Juicy J em Big Fish, sobram brechas a serem preenchidas pelos convidados de Staples. Um campo aberto à novidade e contida ruptura, conceito reforçado na faixa de encerramento do disco, Rain Come Down, uma parceria com Ty Dolla $ign que replica a boa fase Kanye West em YEEZUS (2013).

Entre samples de The Temptations, fragmentos de uma entrevista com Amy Winehouse e retalhos extraídos de diferentes composições do rap estadunidense, Vince Staples surge renovado ao longo da obra. São pouco menos de 40 minutos em que o artista parece mudar de direção a todo instante, uma versatilidade que não distorce a clara aproximação entre as faixas. Composições alimentadas pela avalanche de temas urbanos, referências à cultura pop e redes sociais, além, claro, da particular interpretação do artista sobre o obscuro universo que o cerca.

 

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