"Black Origami"

Ano: Planet Mu
Selo: 2017
Gênero: Eletrônica, Experimental
Para quem gosta de: RP Boo, DJ Paypal
Ouça: Holy Child e Enigma
Nota: 8.6

Resenha: “Black Origami”, Jlin

Com o lançamento de Dark Enery, em março de 2017, Jerrilynn Patton parecia em busca de uma identidade musical própria. Influenciada pela obra de DJ Rashad e do parceiro de selo, o produtor norte-americano RP Boo, a artista original de Gary, Indiana, fez do primeiro álbum em carreira solo um verdadeiro exercício criativo. Fragmentos instrumentais e batidas que utilizam da elementos da IDM/Footwork como principal combustível para a formação de músicas aos moldes de Guantanamo, Black Ballet e grande parte do repertório presente no interior do disco.

Embora diverso musicalmente, Black Origami (2017, Planet Mu), segundo e mais recente álbum de inéditas da produtora estadunidense, utiliza do conceito oriental como um precioso combustível para a formação dos arranjos e temas instrumentais que orientam grande parte das composições. Batidas, quebras, samples, vozes e elementos percussivos que transportam o ouvinte para diferentes cenários. Uma criativa desconstrução de tudo aquilo que Jlin vem desenvolvendo desde o começo da carreira.

Conceitualmente amarrado pela força tribal de elementos da cultura oriental, Black Origami faz de cada composição um objeto específico, marcado pela colagem de ideias. Um bom exemplo disso está na faixa de encerramento do disco, a intensa Challenge (To Be Continued). Entre batidas que parecem vindas uma tribo indígena, Patton detalha elementos da cultura árabe, samples de elefantes, vozes ritualísticas e tudo um universo de referências que transportam o ouvinte para diferentes cenários.

A repetição é outro elemento importante para a construção do trabalho. Segunda faixa do disco, Enigma utiliza de um limitado número de samples, vozes e batidas como componente fundamental para a arquitetura da canção, resultando em uma peça propositadamente instável, por vezes íntima da obra de M.I.A. em Kala (2007). O mesmo conceito acaba se repetindo em outros momentos ao longo do álbum, caso da urbana Hatshepsut, música que mais se aproxima da obra de RP Boo e demais influências de Jlin.

Assim como em Dark Energy, Patton passeia pelo disco criando pequenas brechas para a chegada de diferentes colaboradores. Entre velhos conhecidos, caso do produtor Fawkes em Calcination e Holly Herndon na pulsante 1%, o destaque acaba ficando por conta da presença do veterano William Basinski em Holy Child. Climática, a canção se espalha em meio a vozes etéreas e batidas contidas que dialogam com a presente fase do britânico Burial. Uma composição ainda íntima do tema oriental que serve ao trabalho, porém, distante musicalmente, como uma propositada ruptura.

Violento, sereno, minimalista e grandioso na mesma proporção, Black Origami é um trabalho que brinca com os instantes. Histórias que parecem contadas mesmo no curto espaço entre uma batida e outra, efeito da variedade de texturas, colagens, ruídos, vozes e melodias eletrônicas cuidadosamente exploradas pela produtora durante toda a execução do disco. Do território desbravado em Dark Enery, Jlin parece ir além, colidindo décadas de referências e sonoridades de forma a consolidar uma obra imensa.