"Bloom"

Ano: 2018
Selo: Capitol
Gênero: Pop, R&B
Para quem gosta de: Lorde e Perfume Genius
Ouça: Animal, Bloom e My My My!
Nota: 8.3

Resenha: “Bloom”, Troye Sivan

Troye Sivan não poderia ter pensado em um nome melhor para o segundo registro de inéditas da carreira, Bloom (2018, Capitol). Ao mesmo tempo em que funciona como uma metáfora para a entrega e completa vulnerabilidade dos indivíduos durante o ato sexual, difícil não pensar no título da obra como um reflexo do amadurecimento criativo e florescer sentimental do jovem artista, cada vez mais distante da estética pueril detalhada nas canções do primeiro álbum de estúdio, Blue Neighbourhood (2015).

Descrito pelo próprio artista como um “álbum sexual“, o trabalho de dez faixas cuidadosamente planejadas dentro de estúdio levou pouco mais de dois anos até ser finalizado e entregue ao público. São composições autobiográficas, centradas em conflitos e desilusões recentes enfrentadas pelo músico sul-africano. Canções e versos marcados pelo coração partido do eu lírico, como uma típica obra de (des)amor, porém, partindo de uma ótica de um personagem homossexual, no caso, o próprio artista.

Eu me lembro daquela noite em que você me chamou de louco / Você me ergueu / Me beijou e disse ‘eu te amo, baby’ / Você não deu a mínima“, canta em Postcard, colaboração com a australiana Gordi e um fino retrato da poesia melancólica que rege o disco. Instantes em que Sivan desaba por completo, como em What A Heavenly Way To Die (“Que maneira divina de morrer / Que tempo para se estar vivo / Porque o para sempre está em seus olhos / Mas para sempre não é nem metade do tempo“), precioso diálogo com o clássico There Is a Light That Never Goes Out, uma das principais músicas do grupo britânico The Smiths.

Claro que esse tempero amargo é apenas um complemento ao trabalho. Do momento em que tem início, em Seventeen (“Eu saí procurando por um amor quando tinha dezessete anos / Talvez um pouco jovem demais, mas era real para mim“), passando pelo R&B à la Justin Timberlake, em My My My! (“Eu morro todas as noites com você / Meu, meu, meu / Vivendo para todos os seus movimentos“), cada elemento do disco reflete a busca de Sivan por um novo amor. Canções guiadas pela vulnerabilidade, lasciva e entrega dos versos, conceito reforçado com naturalidade na bem-sucedida faixa-título do disco.

Faça uma viagem ao meu jardim / Eu tenho muito para te mostrar“, provoca a letra da canção enquanto sintetizadores empoeirados apontam para o pop dos anos 1980. Instantes em que o músico esbarra na obra de veteranos como George Michael e Prince. Um som claramente referencial e nostálgico, por vezes íntimos de nomes como Lorde, em Melodrama (2017), e Carly Rae Jepsen, no ótimo Emotion (2015), porém, ligado a outros representantes do cena LGBTQIA+, vide semelhanças com a obra de Perfume Genius. Da base instrumental que cresce em The Good Side ao refinamento poético de Animal, tudo faz lembrar o trabalho de Mike Hadreas em No Shape (2017). A própria identidade visual adotada no vídeo de Bloom parece inspirada no clipe de Slip Away, como se Sivan sussurrasse as próprias influências.

Parte desse cuidado e riqueza de detalhes na composição do disco vem da escolha do músico em colaborar com alguns dos nomes mais interessantes (e menos óbvios) do pop atual. De Oscar Holter à Alex Hope, de Ariel Rechtshaid aos inusitados Bobby Krlic (The Haxan Cloak) e Jam City, sobram pinceladas instrumentais e poéticas que garantem identidade e fino toque de renovação mesmo em faixas comercialmente pensadas para atrair o grande público, como em Dance To This, colaboração com Ariana Grande. Um perfeito exercício de como amadurecer criativamente, porém, preservando a própria identidade e frescor explícito em cada fragmento poético.

 


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