"Boca"

Ano: 2017
Selo: Natura Musical
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Baiana System, Russo Passapusso
Ouça: Boca de Groselha, Tramela e Paçoca
Nota: 8.5

Resenha: “Boca”, Curumin

Caos urbano, preconceito, a dualidade partidária que divide as redes sociais, política, sexualidade, relações pessoais e descoberta. Em um intervalo de apenas 35 minutos de duração, Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin, encontra na pluralidade de temas e referências instrumentais o principal componente para a produção do quarto álbum em carreira solo, Boca (2017, Natura Musical). Versos que inspiram uma forte reflexão sobre diferentes aspectos da nossa sociedade e das interações pessoais que diariamente estimulam os indivíduos.

Primeiro registro de inéditas do cantor, compositor e produtor paulistano desde o quente Arrocha, lançado em 2012, o novo álbum sustenta na percussão o principal componente para a construção das faixas. Da abertura do disco, na climática Bora Passear, passando pelo uso de temas eletrônicos em Boca Pequena Nº1, até alcançar o tribal-tech de Cabeça ou mesmo a ambientação contida de Descendo, Curumin, baterista da própria banda, faz de cada batida um estímulo para a inserção dos versos.

Instantes em que o uso controlado das batidas serve de estímulo para a construção de versos arrastados, sempre provocantes, marca de Boca de Groselha — “Entreabertos lábios / Transbordando atos” —, ou mesmo atos de maior aceleração e peso no discurso, proposta de Tramela, parceria com o rapper Rico Dalasam — “Isqueiro na treta / Faz o favor de descer / Grita pra onde correr / Sigo pra te envaidecer“. Contrastes, curvas, quedas e picos que garantem ao trabalho um ritmo curioso, particular.

Difícil não lembrar de Flying Lotus, Shabbaz Palaces e outros projetos de destaque da cena norte-americana, efeito do completo domínio dos sintetizadores, samples e vozes durante toda a formação do trabalho. Uma renovada colagem de ritmos, mas que em nenhum momento se distancia do soul-funk-samba que vem sendo produzido pelo músico desde o primeiro álbum de estúdio, Achados e Perdidos (2005). Uma rica troca de experiências que se completa com a presença dos músicos Lucas Martins e Zé Nigro, parceiros de Curumin durante toda a formação do álbum.

Em parceria com o trio, um time versátil de colaboradores. Além do já citado Rico Dalasam, responsável pelas rimas de Tramela, cabe ao cantor e compositor baiano Russo Passapusso ocupar os versos de apoio em faixas como Boca Pequena e Terrível. Surgem ainda nomes como a cantora paraense Luê, backing vocal em Prata, Ferro, Barro, quinta faixa do disco. Para o encerramento da obra, um encontro entre Andreia Dias, Anelis Assumpção, Iara Rennó e Max B.O, parceiros de Curumin na colaborativa Paçoca. O próprio encarte e título do disco conta com a psicodélica interferência de Ava Rocha.

Nascido da colagem de ideias, Boca carece de uma audição minuciosa para que seja absorvido em totalidade. No interior de cada composição, uma criativa sobreposição de vozes, batidas, sonoridades e diferentes estéticas, como se Curumin ocultasse décadas de referências mesmo na curta duração do registro. Versos e melodias urbanas se desprendem do óbvio, ocultando informações e possibilidades. Uma pluralidade de sensações que começa na boca do artista, cresce na cabeça do ouvinte e acaba se espalhando por todo o corpo.

 

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