"Bon Voyage"

Ano: 2018
Selo: Domino / Fat Possum
Gênero: Rock Psicodélico, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Unknown Mortal Orchestra e Pond
Ouça: Desert Horse e Breathe In, Breathe Out
Nota: 7.6

Resenha: “Bon Voyage”, Melody’s Echo Chamber

Por mais incrível que seja o homônimo álbum de estreia da banda francesa Melody’s Echo Chamber, difícil não pensar no disco como um “projeto paralelo” de Kevin Parker. Produtor responsável pela obra, o músico australiano não apenas assina parte dos arranjos do registro, como transporta a poesia intimista de Melody Prochet para o mesmo pop psicodélico que vinha sendo explorado pelo Tame Impala desde a estreia com Innerspeaker (2010).

Não por acaso, ao mergulhar no recém-lançado Bon Voyage (2018, Domino / Fat Possum), agora sem a presença de Parker, Prochet parece abraçar um som completamente transformado, como uma fuga de tudo aquilo que havia testado durante a produção do álbum anterior. São fragmentos instrumentais, colagens psicodélicas e diferentes variações de voz que bagunçam a experiência do ouvinte durante toda a execução do trabalho.

Síntese do álbum, Desert Horse talvez seja a melhor representação do novo posicionamento adotado por Prochet. Em um intervalo de apenas cinco minutos, a cantora e compositora francesa não apenas se entrega ao mesmo conceito lisérgico detalhado no último disco, como aponta para o passado, flertando com a psicodelia torta de Rita Lee no início d’Os Mutantes, ruídos eletrônicos e variações instrumentais que vão do pop francês à música árabe.

Com mais de sete minutos de duração, Quand Les Larmes D’un Ange Font Danser La Neige é outra composição que reflete a completa versatilidade de Prochet em estúdio. Camadas de vozes e guitarras etéreas que se projetam em uma estrutura ascendente, estímulo para o turbilhão criativo que dialoga com a obra de gigantes como Stereolab e Serge Gainsbourg, porém, sempre preservando a identidade da cantora. Um som colorido, mágico, cuidado que se reflete desde as inaugurais Cross My Heart e Breathe In, Breathe Out.

Parte desse aspecto plural dado ao trabalho vem do permanente diálogo de Prochet com os dois produtores do disco, Fredrik Swahn (The Amazing) e Reine Fiske (Dungen). É como se cada uma das canções de Bon Voyage, mesmo a curtinha Var Har Du Vart?, fosse montada a partir de fragmentos pinçados de diferentes gravações. A mesma estrutura delirante se revela nos versos da canção. São versos confessionais que se perdem em meio a instantes de puro surrealismo, como uma viagem incerta pela mente da artista francesa.

Concebido em um intervalo de quase quatro anos — a derradeira Shirim, por exemplo, foi originalmente apresentada ao público em meados de 2014 —, Bon Voyage marca não apenas o início de uma nova fase na carreira do Melody’s Echo Chamber, como o ressurgimento de Prochet após o grave acidente e longo período de internação que enfrentou no último ano, tema sutilmente referenciado na imagem de capa do disco. Um ato de pura renovação e natural estímulo para os futuros trabalhos da cantora.

 


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