Resenha: “Boogie Naipe”, Mano Brown

Categories Resenhas

Artista: Mano Brown
Gênero: Hip-Hop, Soul, Funk
Acesse: https://www.facebook.com/manobrown/

 

Quem conhece um pouco da história dos Racionais MC’s sabe do peso da música negra produzida nos anos 1970 para formação do quarteto paulistano. Veteranos como Jorge Ben Jor, Tony Tornado e, principalmente, Tim Maia – vem do clássico Tim Maia Racional, Vol. 1 (1975) a inspiração para o nome do coletivo. Um time de artistas que acabou contribuindo para o fortalecimento das rimas e bases que há mais de duas décadas servem de estímulo para o grupo. Um permanente diálogo com o passado que cresce de forma autoral no primeiro álbum de Mano Brown em carreira solo.

Dividido entre leveza do soul, o groove e as rimas, o quente Boogie Naipe (2016) flutua de maneira nostálgica entre o som produzido há mais de quatro décadas e presente cenário. Um resgate da rica produção musical, personagens, ritmos e fórmulas instrumentais que ultrapassa o território brasileiro e esbarra com naturalidade na recente articulação da música negra dos Estados Unidos. Vozes, batidas e arranjos que funcionam como um estímulo para o ouvinte.

Produzido em um intervalo de quase dois anos, o registro de 22 faixas encontra no uso de versos descritivos um precioso componente de atuação. São fragmentos da noite paulistana (Boa Noite São Paulo), mulheres poderosas (Mulher Elétrica), memórias (Foi Num Baile Black) e desilusões amorosas (Mal de Amor). Mais do que uma coleção de músicas isoladas, uma espécie de ponto de encontro conceitual, atmosférico, uma casa noturna como anuncia o convidado Wilson Simoninha logo nos primeiros segundos de Sinta-se Bem Com Boogie Naipe.

Com produção assumida pelo cantor e produtor musical Lino Krizz, um dos responsáveis pelo clássico Senhorita e dono da voz em grande parte das canções do presente disco, Boogie Naipe é uma obra que investe no coletivo. Mesmo com o nome estampado na capa do disco, Brown está longe de ser o “protagonista” do trabalho, trata-se apenas de um elemento de conexão. No interior do álbum, nomes como Seu Jorge, destaque na dobradinha Louis Lane e Dance, Dance, Dance, Hyldon, Ellen Oléria, Max de Castro e o norte-americano Leon Ware, parceiro de gigantes como Quincy Jones e Marvin Gaye.

Extenso, Boogie Naipe é um álbum que naturalmente precisa de tempo até ser absorvido em totalidade. Enquanto a primeira porção do registro mantém firme o ritmo dançante, revelando um som equilibrado, pronto para as pistas, difícil perceber o mesmo cuidado na segunda metade do trabalho. Entre composições arrastadas, caso da esquecível Nova Jerusalém, e pequenas repetições criativas, como as variações de Amor Distante e Felizes, Brown lentamente parecer perder o fôlego, deixando nas mãos de Krizz o parcial controle da obra.

Curioso perceber em Boogie Naipe os mesmos excessos cometidos pelo parceiro Edi Rock dentro do primeiro disco em carreira solo, Contra Nós Ninguém Será (2013). Um número exagerado de canções, parcerias aleatórias e ideias que se repetem a todo instante, tornando a audição do álbum cansativa, penosa em diversos momentos. Músicas ancoradas em um mesmo conceito romântico, como se a poesia de Brown fosse incapaz de ultrapassar um limite pré-definido. Redundâncias e tropeços que não apenas atrapalham o crescimento do trabalho, como acabam sufocando os instantes de breve acerto do trabalho.

 

Boogie Naipe (2016, Boogie Naipe)

Nota: 6.8
Para quem gosta de: Edi Rock, Lino Krizz e Kamau
Ouça: Mulher Elétrica, Foi Num Baile Black e Boa Noite São Paulo

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Criador do Miojo Indie, trabalhou como coordenador de Mídias Sociais na Editora Abril, editor de entretenimento e cultura no Huffington Post e hoje é editor de conteúdo no Itaú. Apaixonado por GIFs de gatinhos, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil como presente.

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