"Bottle It In"

Ano: 2018
Selo: Matador
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: The War On Drugs e Real Estate
Ouça: Bassackwards e Rollin With The Flow
Nota: 7.0

Resenha: “Bottle It In”, Kurt Vile

Ouvir Bottle It In (2018, Matador) é como embarcar em uma longa viagem ao lado de Kurt Vile. Em um contínuo processo de transformação criativa que teve início durante o lançamento de Wakin on a Pretty Daze (2013), o cantor e compositor norte-americano vem investindo na composição de obras cada vez mais extensas, propositadamente arrastadas. Canções sempre descritivas, concebidas em uma medida própria de tempo, preferência que se reflete de maneira tão exaustiva quanto gratificante no decorrer do presente disco.

Concebido em um intervalo de poucos meses, paralelamente ao colaborativo Lotta Sea Lice (2017), obra assinada em parceria com a australiana Courtney Barnett, Bottle It In exige uma audição atenta do ouvinte até se revelar por completo. De fato, são quase 80 minutos de duração, tempo demais para um registro que pouco evolui quando voltamos os ouvidos para os antigos trabalhos de Vile, principalmente o antecessor B’lieve I’m Goin Down… (2015).

Do momento em que tem início, em Loading Zones, até alcançar a curtinha (Bottle Back), faixa de encerramento do disco, Bottle It In oscila entre instantes de propositado exagero e composições guiadas pela minúcia dos arranjos. Um colorido jogo de pequenos contrastes, vide a dobradinha composta pela psicodelia litorânea de Cold Was the Wind, síntese do refinamento melódico de Vile, e a arrastada Skinny Mini, com seus mais de dez minutos de duração de sufocante montagem poética e instrumental.

Embora exigente quando próximo dos antigos trabalhos do músico, vide o dinâmico Smoke Ring for My Halo (2011), Bottle It In está longe de parecer uma obra restritiva, difícil de ser apreciada. Pelo contrário, a todo o momento, Vile se permite mergulhar na composição de faixas acessíveis, guiadas pela leveza dos arranjos e vozes. Exemplo disso ecoa com naturalidade em Rollin With The Flow, um folk psicodélico que aponta para a década de 1970; no pop nostálgico de Yeah Bones, além, claro, de Mutinies, canção de essência atmosférica que parece confortar o ouvinte.

O grande problema do disco acaba se concentrando na completa falta de edição do material. É como se Vile revelasse ao público todas as músicas concebidas durante o processo de gravação do álbum, fazendo de Bottle It In um registro demasiado extenso, cansativo. A forte similaridade entre as faixas, como variações da bem-sucedida Bassackwards, contribui para a experiência pouco estimulante do ouvinte. Uma permanente sensação de dar voltas em torno de um mesmo universo criativo, como uma reciclagem das canções entregues em Wakin on a Pretty Daze.

Mesmo imerso em pequenos desajustes, Bottle It In revela preciosidades como One Trick Ponies, Check Baby e toda a sequência de faixas acima citadas. Surgem ainda colaborações pontuais de nomes como Kim Gordon, Cass McCombs, Stella Mozgawa (Warpaint) e Mary Lattimore, parceiros de Vile na composição dos arranjos e vozes que recheiam a obra. Instantes de breve acerto, mas que acabam tendo seu impacto reduzido em virtude da completa irregularidade do álbum.