"Boygenius"

Ano: 2018
Selo: Matador
Gênero: Indie Rock, Indie Folk
Para quem gosta de: Julien Baker e Soccer Mommy
Ouça: Me & My Dog e Stay Down
Nota: 8.0

Resenha: “Boygenius”, Boygenius

Boygenius (2018, Matador) é um trabalho impressionante. Em um intervalo de apenas 20 minutos, tempo de duração da obra, cada elemento do registro de seis faixas parece pensado emocionar o ouvinte, costurando memórias de um passado ainda recente, tormentos e experiências particulares em uma linguagem essencialmente acessível, tocante. Composições ancoradas em relacionamentos fracassados, instantes de profundo isolamento, medo e o permanente desejo de superação.

Nascido do encontro entre Julien Baker, Phoebe Bridgers e Lucy Dacus, o projeto concebido em um intervalo de poucas semanas revela ao público o que existe de mais doloroso e libertador no som produzido pelo trio norte-americano. Composições adornadas pelas inserção de guitarras acústicas, blocos temporários de ruídos e vozes complementares que arrastam o ouvinte para dentro de um imenso turbilhão emocional, proposta que se reflete até a derradeira Ketchum, ID.

Eu não posso te ouvir, você está muito longe / Eu não posso te ver, a luz está na minha cara / Eu não posso te tocar, eu não faria se eu pudesse / Eu não posso te amar como você quer que eu faça“, cresce o doloroso coro de vozes na inaugural Bite The Hand, um indicativo da poesia triste que serve de sustento ao disco. Composições que partem de uma solução contida de melodias e vozes para crescer de forma turbulenta nos instantes finais, como uma avalanche de sentimentos que se espalham desmedidos.

É como se tudo aquilo que foi apresentado por Baker, em Turn Out the Lights (2017), e Dacus, no ainda recente Historian (2018), lançado há poucos meses, fosse delicadamente ampliado dentro de estúdio. Exemplo disso está na sequência formada por Stay Down e Salt In The Wound. Composições trabalhadas em uma estrutura minimalista, livre de possíveis excessos, mas que logo mergulha em uma base ruidosa, suja, como um diálogo instrumental com a poesia amarga que serve de sustento ao disco.

Interessante perceber em Me & My Dog, composição que mais se distancia dessa estrutura marcada, o momento de maior beleza do álbum. Assumida em quase totalidade por Bridgers, a canção guiada pela inserção de parcas guitarras encontra na poesia detalhista da cantora norte-americana um exercício de profunda melancolia. “Eu quero ouvir uma música sem pensar em você / Eu queria estar em uma nave espacial / Só eu e meu cachorro e uma visão impossível / Eu sonho com isso / E eu acordo caindo“, confessa de forma triste e honesta.

Doloroso refúgio criativo, Boygenius não apenas sintetiza parte do som que vem sendo produzido por cada integrante da banda nos últimos meses, como dialoga musicalmente com outros lançamentos recentes da cena norte-americana. Uma extensão melancólica e confessional de tudo aquilo que Soccer Mommy, Frankie Cosmos e demais compositoras tem se dedicado a explorar lírica e musicalmente dentro de seus próprios registros autorais.

 


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