"Brasileiro"

Ano: 2018
Selo: Slap
Gênero: Indie Pop, MPB
Para quem gosta de: Mahmundi e Rubel
Ouça: Fica Tudo Bem e Regra dos Nove
Nota: 7.5

Resenha: “Brasileiro”, Silva

Em um cenário polarizado, onde multidões raivosas vestem a camisa da CBF para pregar um discurso de ódio e falsa mudança, Brasileiro (2018, Slap), quarto e mais recente álbum de inéditas do capixaba Silva, surge como um delicado refúgio poético. Na contramão do debate político que invade dezenas de obras recentes, cada fragmento do disco se projeta de forma escapista. São versos de amor, delírios melancólicos e pequenas confissões românticas que se entregam ao samba, bossa nova e outros ritmos locais, como uma autoafirmação da identidade nacional por parte do próprio artista.

Nada será mais como era antes“, canta logo nos primeiros minutos do trabalho, indicando o breve distanciamento do tom moroso incorporado ao último registro autoral, Júpiter (2015), e a clara continuação do material apresentado em Silva Canta Marisa (2017), obra em que revisitou parte do repertório da cantora e compositora carioca Marisa Monte. Canções que se projetam em um cenário paradisíaco e ensolarado mesmo nos instantes de maior recolhimento, vide Milhões de Vozes, uma das poucas em que a poesia político do álbum aflora (“Tem milhões de vozes / Todo mundo a comentar / Um milhão de vezes / Ninguém tenta escutar“).

Entre faixas como Duas da Tarde (“No mergulho eu falei com Deus / Quando eu sair dor mar / Vou me lembrar do dom / Que é poder respirar“) e A Cor é Rosa (“Para abraçar o sol e fechar os olhos / Para falar de amor, deitar em seu colo / Vim de outra cidade / Eu sou da estrada, sou rosa“), Silva busca sempre confortar o ouvinte, convidado a se perder em um ambiente dominado por emoções particulares. Uma poesia sorridente, romântica, como uma extensão do mesmo pop sutil apresentado em Vista pro Mar (2014), obra também guiada pelos ritmos nacionais.

De essência econômica, porém, detalhista, a grande beleza de Brasileiro está justamente nos instantes de maior recolhimento da obra. São músicas como Milhões de Vozes (“Tem milhões de vozes / Todo mundo a comentar / Um milhão de vezes / Ninguém tenta escutar“) e Prova dos Nove (“Que sob o seu olhar eu já não mais cabia / Que não queria mais comigo envelhecer“) em que o canto triste do músico se projeta sem pressa, vagaroso. Um cuidado que se reflete no sambinha Guerra de Amor, canção que parece extraída dos últimos discos de Marisa Monte, ou mesmo nos dois atos instrumentais do álbum, Sapucaia e Palmeira.

Em Fica Tudo Bem, única colaboração do disco, um precioso ato de descoberta entre Silva e a convidada, a cantora Anitta. De um lado, um músico que lentamente se despe de toda e qualquer complexidade para dialogar de forma honesta com uma parcela maior do público. No outro, uma artista interessada em desvendar cada brecha da canção, costurando versos sussurrados, quase inaudíveis, como se trilhasse um território completamente novo, curioso. Pouco menos de três minutos que sintetizam a leveza detalhada durante toda a execução da obra.

Atmosférico, como um ambiente temporário que se abre para a passagem do ouvinte, Brasileiro peca pela completa ausência de novidade na construção dos arranjos e temas instrumentais, entretanto, seduz na propositada leveza que embala a formação dos versos. Difícil não se deixar conduzir pela ambientação tropical de A Cor é Rosa ou mesmo a melancolia fina de Prova dos Nove. Trata-se de um claro exercício de estilo, como um desdobramento colorido do mesmo pop autoral que vem sendo produzido pelo músico desde o primeiro álbum de estúdio, Claridão (2012).

 


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