"Broovin"

Ano: 2018
Selo: Freak
Gênero: Jazz, Funk, Synthpop
Para quem gosta de: Kassin, Mel Azul e Séculos Apaixonados
Ouça: Uh Ah Oh, Masta e Linda
Nota: 7.5

Resenha: “Broovin”, Bruno Bruni

Bastam os primeiros minutos de Bagacera, faixa de abertura de Broovin (2018, Freak) para que o ouvinte seja prontamente transportado para dentro do primeiro álbum em carreira solo de André Bruni, ou, como aqui se apresenta, Bruno Bruni. Da linha de baixo funkeada, passando pela inserção de sintetizadores psicodélicos e pianos sempre minuciosos, cada elemento da canção reflete não apenas o esmero como a profunda nostalgia do músico paulistano, inclinado a reverenciar diferentes aspectos da música produzida entre os anos 1970 e 1980.

São elementos cuidadosamente trabalhados dentro de estúdio, resultando em um perfeito ato de abertura que ainda serve de passagem para a faixa seguinte do disco, Uh Ah Oh. “Eu pensei em te deixar / Mas não vai dar, meu bem / Eu pensei em te explicar / Mas não vai dar, meu bem“, cresce o coro de vozes, sempre harmônicas, masculinas e femininas, emulando a boa fase de clássicos do jazz-eletrônico concebido há mais de quatro décadas. Sentimentos que se conectam diretamente aos arranjos, indicativo do material que acompanha o ouvinte até o fechamento do álbum.

Em, Linda, primeiro single do disco, a busca por novas possibilidades e ritmos. Difícil não pensar na trilha sonora de clássicos do Super Nintendo, conceito que se repete com naturalidade ao longo do disco. Pequenas viagens instrumentais e diálogos com o passado que ecoam com naturalidade na faixa seguinte do trabalho, Space Time. São sobreposições eletrônicas e temas jazzísticos que vão da obra de Hermeto Pascoal aos experimentos do norte-americano Flying Lotus, como se Bruni mudasse de direção a todo instante.

Exemplo disso está em No Escuro, um pop estranho, torto, conceito que muito se aproxima do som incorporado pelo veterano Kassin. De fato, a similaridade com a obra do cantor e produtor carioca ecoa durante toda a execução do álbum. A diferença está na forma como Bruni se concentra na produção de atos curtos, imediatos, mas não menos detalhistas. Prova disso está nas incontáveis camadas de Falei, música que se espalha em meio a sintetizadores e vozes maquiadas, resultando na formação de um som delirante.

De fato, “delírio” é uma palavra que resume com naturalidade o som produzido pelo músico em Broovin. Da forma como as vozes se entrelaçam à pluralidade de ritmos — funk, hip-hop, jazz, pop, eletrônica —, cada composição revela ao público um universo de pequenos detalhes, direcionamento que força uma audição atenta por parte do ouvinte. Perceba quantos elementos se escondem entre as brechas da curtinha Bomba. Em Masta, faixa de encerramento do disco, uma mistura quente de ritmos, como se Bruni fosse da lisergia de Bob Marley ao tropicalismo regionalista de Gilberto Gil.

Mesmo dentro dessa estrutura fracionada, partindo sempre de atos diminutos, Bruni entrega ao público uma obra essencialmente grandiosa. É como se cada composição do disco fosse encarada como fragmento de uma peça única, entregue ao público em pequenas doses. Não por acaso, grande parte das canções partilham de uma mesma base instrumental, costurando sintetizadores, batidas e vozes de forma sempre aproximada, proposta que reflete o completo domínio do artista em relação à própria obra.

 


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