"Caravanas"

Ano: 2017
Selo: Biscoito Fino
Gênero: Samba, Jazz, Bossa Nova
Para quem gosta de: Caetano Veloso e Gilberto Gil
Ouça: As Caravanas, Dueto e Tua Cantiga
Nota: 8.5

Resenha: “Caravanas”, Chico Buarque

Em um cenário de turbulenta articulação política e debates sempre acalentados que invadem as redes sociais e respingam nas ruas, Chico Buarque poderia facilmente ter encontrado a matéria-prima para uma obra de essência atual, marcada pelo frescor e talvez íntima de clássicos editados no início dos anos 1970. Interessante perceber nos versos de Caravanas (2017, Biscoito Fino), 38º álbum de estúdio do responsável por Construção, Roda Viva, Meu Caro Amigo e outras composições de versos afiados, um parcial distanciamento desse possível ambiente criativo.

Consumido pela dor, delírios sentimentais e o romantismo honesto do que tanto alimenta a obra do cantor e compositor carioca, o sucessor do mediano Chico, lançado em 2011, carrega no lirismo doce de cada composição o principal componente para seduzir e emocionar o público. Canções temperadas pelo passado, efeito da ambientação jazzística que escapa dos arranjos do maestro e violonista Luiz Cláudio Ramos e chega até os versos de Buarque, por vezes deslocados, arcaicos – “Se um desalmado te faz chorar / Deixa cair um lenço / Que eu te alcanço / Em qualquer lugar“.

Entre personagens e versos particulares que refletem a alma do próprio compositor, Caravanas detalha uma série de elementos típicos da obra de Buarque. São declarações apaixonadas como na onírica A Moça do Sonho; um amor torto em Blues pra Bia, composição em que canta sobre a relação não correspondida com uma lésbica; o relacionamento extraconjugal do eu lírico na machista Tua cantiga; o confessa apreço pelo futebol em Jogo de Bola; memórias da infância que se espalham entre as brechas da doce Massarandupió.

Surgem ainda músicas como a apaixonada Dueto, uma releitura da composição originalmente gravada em 1980 em parceria com Nara Leão, uma das principais interpretes do cantor. Pontuada por versos que dialogam com o presente — “Consta no Google, no Twitter, no Face, no Tinder, no Whatsapp…” —, a faixa ainda se abre para a breve interferência de Clara Buarque, neta do cantor. A mesma atmosfera colaborativa se repete em Massarandupió, parceria com o neto Chico Brown, filho de Helena Buarque e Carlinhos Brown. Nada que se compare ao brilhantismo do artista na derradeira e quase isolada faixa-título do trabalho.

Produzida em parceria com o rapper Rafael Mike, um dos integrantes do Dream Team do Passinho, a canção de ritmo forte escancara nos versos as marcas da escravidão e o peso do racismo. “Tem que bater, tem que matar / Engrossa a gritaria / Filha do medo, a raiva é mãe da covardia / Ou doido sou eu que escuto vozes / Não há gente tão insana“, canta enquanto arranjos de cordas e a percussão quente cresce ao funda da composição, dialogando com o mesmo conceito explorado na provocativa Sinhá, faixa de encerramento do álbum anterior, ou mesmo a urbana Ode aos Ratos, ponto central do ótimo Carioca, de 2006.

Costurado por referência que se entregam aos temas jazzísticos de Duke Ellington, fragmentos de O Estrangeiro (1942), obra do existencialista Albert Camus, citações ao cubano Silvio Rodríguez na latina Casualmente, e trechos do dramaturgo William Shakespeare, Caravanas funciona como a passagem para um universo próprio do cantor e compositor carioca. Com exceção da homônima faixa de encerramento, um trabalho que talvez se distancia do presente cenário político/cultural, porém, sustenta no romantismo declarado dos versos um fino exercício da poesia atenta e evidente cuidado de Chico Buarque na montagem de cada composição.

 

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