"Cavala"

Ano: 2018
Selo: Risco
Gênero: Experimental, MPB, Alternativa
Para quem gosta de: Iara Rennó e Juçara Marçal
Ouça: Tenso, Eu Te Amo e Maria
Nota: 8.8

Resenha: “Cavala”, Maria Beraldo

Em Cavala (2018, Risco), álbum de estreia da cantora, compositora e clarinetista Maria Beraldo, a alma feminina transborda. Concebido em meio a camadas de ruídos eletrônicos, diálogos com o jazz e versos orientados pela profunda sensibilidade dos temas, cada fragmento do disco se projeta de forma intimista, doce e, ao mesmo tempo, furiosa. Um verdadeiro turbilhão sentimental que busca conforto em passagens autobiográficas e memórias ainda recentes da artista, porém, capazes de dialogar com todo e qualquer ouvinte.

Tenso / Tão desavisado meu / Tesão / Vive um momento / Tenso / Livre leve solto de coração / É gostoso é / Tenso”, canta logo na abertura do disco, na explosiva Tenso, um indicativo da completa entrega de Beraldo durante toda a execução da obra. Versos em que discute a própria sexualidade (Amor Verdade), a herança feminina (Maria), personagens próximos (Helena) e a força do sexo como um importante componente criativo para a formação dos versos (Cavala).

Mesmo vendido como o “grito de liberdade de uma mulher lésbica“, proposta reforçado no texto da apresentação da obra, Cavala em nenhum momento se projeta como um álbum preso a um tema ou conceito específico. Do primeiro ao último verso, todos os elementos se projetam de forma a revelar um disco guiado pela constante descoberta de sua realizadora. Exemplo disso está em Da Menor Importância, música em que detalha de forma sensível o amor por um personagem não binário – “Enquanto eu não ouço sua voz / Eu não sei dizer se é um homem / Ou uma mulher“.

Em Amor Verdade, terceira faixa do álbum, uma espécie de carta musicada em que discute a própria sexualidade com total delicadeza. “Pai, gosto muito dos homens, sim / De tê-los ao alcance da boca, sim / Mas no calor da manhã quem me fez delirar foi uma mulher / Como é minha mãe“, confessa enquanto paisagens instrumentais se espalham ao fundo da canção, sem pressa. Mesmo na poesia bem-humorada de Gatas Sapatas, faixa que parece saída de algum disco de Marina Lima, Beraldo preserva a honestidade dos temas, compartilhando experiência particulares com o ouvinte – “Gatas sapatas mães de bebê / Tão sexy com seu sling / Tão sexy com seu bebê“.

Grandioso na composição dos versos, Cavala sustenta na rica base instrumental um poderoso alicerce. Para a execução do disco, além de produzir e tocar grande parte dos instrumentos, Beraldo contou com a co-produção minuciosa de Tó Brandileone e breve interferência de músicos como Tim Bernardes e Mariá Portugal. O resultado dessa parceria está na formação de uma obra essencialmente versátil, maior a cada nova audição, cuidado evidente na ambientação etérea dada ao clássico Eu Te Amo, música originalmente composta por Chico Buarque e Tom Jobim, porém, adaptada ao universo particular do registro.

Produto das experiências de Beraldo, artista que nos últimos anos esteve envolvida com nomes como Arrigo Barnabé, Elza Soares e Iara Rennó, Cavala vai do breve recolhimento (Maria) ao curioso encontro das formas instrumentais (Sussussussu) de forma propositadamente instável, torta. Ideias que se espalham em uma cama de pequenas incertezas, como um convite a se perder pelos sentimentos, confissões românticas e conflitos que invadem a mente da cantora.

 


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