"Chris"

Ano: 2018
Selo: Because Music
Gênero: Pop, R&B, Funk
Para quem gosta de: Michael Jackson, Shura e Prince
Ouça: Girlfriend e The Walker
Nota: 8.0

Resenha: “Chris”, Christine and The Queens

Segundo álbum de Christine and The Queens em carreira solo, Chris (2018, Because Music) é uma verdadeira homenagem ao pop/R&B dos anos 1980. Do momento em que tem início, em Comme Si, composição que parece replicar os sintetizadores de Michael Jackson no clássico Thriller (1982), até alcançar a derradeira The Stranger, cada fragmento do disco parece apontar para o passado de forma curiosa, mergulhando em algumas das principais referências que orientam o trabalho da jovem Heloise Letissier, grande responsável pelo projeto.

Menos contido em relação ao material entregue no último álbum de inéditas, Chaleur Humaine (2014), um dos registros mais celebrados do novo pop francês, Chris preserva a essência minimalista das antigas composições de Letissier, porém, se permitindo provar de novas fórmulas e temas instrumentais. Não por acaso, a artista escolheu Girlfriend, colaboração com o norte-americano Dâm-Funk, como primeiro single do disco. Um som funkeado e quente, como um diálogo breve com os principais trabalhos de Prince.

O mesmo refinamento nostálgico ecoa com naturalidade em The Walker, faixa que mais se aproxima da base detalhada em Chaleur Humaine, porém, mantendo firme a relação de proximidade com o presente trabalho. “Eu saí para uma caminhada / E eu não voltarei até que minha pele esteja manchada / Foi assim que escolhi falar / Com alguns acessos violentos, violentas flores aparentam / Toda noite eu ando“, entrega a provocativa letra da canção enquanto batidas e sintetizadores se espalham sem pressa, convidando o ouvinte a dançar.

Empoeirado na composição dos arranjos, Chris carrega nos versos um criativo diálogo com o presente. São faixas em que a artista francesa discute gênero, empoderamento feminino, sexo e conflitos intimistas de forma sempre acessível, conceito que vem sendo aprimorado desde o álbum anterior. Poemas entristecidos, como em Doesn’t Matter (“Porque os pensamentos suicidas ainda estão na minha mente / Dê a ela aquele sorriso horrível quando deitar na cama“) ou mesmo faixas em que Letissier reflete sobre a própria identidade, caso de What’s-her-face e The Stranger.

Em Chris, como reforçado em diferentes entrevistas, tudo gira em torno das experiências, realizações e tormentos compartilhados pela cantora. Da imagem de capa do disco, brincando com o visual andrógeno de Letissier, passando pelo título da obra, uma representação desse personagem real interpretado pela artista, faixa após faixa, a musicista francesa convida o ouvinte a se perder em um universo particular. Mesmo a base instrumental do trabalho parece confessar algumas das principais referências da artista. Variações instrumentais que passam pela obra de Bruce Springsteen, Janet Jackson e até nomes recentes, como ANOHNI e Perfume Genius.

Entregue ao público em duas diferentes versões — uma com versos em inglês, outra em francês —, Chris preserva e, ao mesmo tempo, perverte parte do som que vem sendo produzido pela artista desde o início da carreira. Três ou mais décadas de músicas organizadas em uma estrutura que atende diretamente aos desejos da artista. Frações instrumentais, rítmicas e poéticas, como em Girlfriend, 5 Dollars e Damn (What Must a Woman Do), em que Letissier se revela por completo, brincando com a música pop em uma linguagem particular.