"Cold as a Kitchen Floor"

Marrakesh

Ano: 2018
Selo: Balaclava Records
Gênero: Indie Rock, Dream Pop
Para quem gosta de: My Magical Glowing Lens e Terno Rei
Ouça: Moonhealing e All U Need
Nota: 8.0

Resenha: “Cold as a Kitchen Floor”, Marrakesh

Ouvir Cold as a Kitchen Floor (2018, Balaclava Records), estreia do grupo curitibano Marrakesh, é como tatear um ambiente escuro. Sem saber exatamente o que encontrar pela frente, faixa após faixa, o grupo brinca com os instantes, colidindo diferentes fórmulas instrumentais, conceitos e, principalmente, sentimentos, cuidado que se reflete desde a música de abertura do disco, Void, e segue até a derradeira Mirage, minucioso ato escolhido para o fechamento do registro.

Produto da lenta sobreposição de ideias e preferências compartilhadas por cada membro do projeto — hoje composto por Lucas Cavallin, Bruno Tubino, Thomas Berti, Matheus Castella e Nicholas Novak —, o álbum de 12 faixas ganha forma aos poucos, sem pressa. Entre guitarras carregadas de efeito, sintetizadores, samples e vozes maquiadas pelo uso do auto-tune, cada elemento da obra parece transportar público e banda para um novo território, brincando com a interpretação do ouvinte.

Exemplo disso está no pop torto que sutilmente invade Moonhealing, segunda faixa do disco. Enquanto a letra introspectiva ganha forma aos poucos — “Você não é tão forte / Colocando tudo a perder / E perder tudo não significa / Qualquer tipo de dano a você” —, batidas eletrônicas, vozes robóticas e sintetizadores se espalham em meio a camadas de puro delírio, mergulhando em um dream-pop-psicodélico que ainda serve de estímulo para a canção seguinte do disco, All U Need.

Interessante perceber na curtinha Kwax, quinta canção do disco, uma fuga breve desse mesmo universo temático, como se as batidas e fórmulas eletrônicas dessem lugar às guitarras. Nada que prejudique a estrutura montada especialmente para a obra, vide a ambientação serena que invade a faixa seguinte, Carry You. Um lento desvendar de ideias que se conecta ao pop nostálgico de Try Out, música que se espalha vagarosa, inebriante, detalhando vozes e guitarras melódicas.

Dentro desse contexto, difícil não lembrar de Vondelpark, Homeshake e tantos outros projetos da cena alternativa que brincam com a mesma pluralidade de ritmos. A diferença em relação ao trabalho do grupo curitibano está na forte aproximação entre as faixas. São fragmentos de vozes, samples e efeitos que ecoam durante toda a execução do trabalho, culminando na produção de músicas como Nextory, um agregado de todas esses experiências e recortes colados pela banda.

Delicado quando exige ser, vide o romantismo doce que invade Bae (“Quando eu te vi / Te vi andando por aí / Eu não quero / Eu quero você ao meu lado“), grandioso em momentos estratégicos, como na massa ruidosa que cresce em Late Blue, Cold as a Kitchen Floor reflete o completo amadurecimento do grupo paranaense. Um fino exercício de transformação frente ao material entregue há dois anos, durante o lançamento do primeiro EP de inéditas do quinteto, Vissiliki (2016).

 


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