"Consertos em Geral"

Manoel Magalhães

Ano: 2018
Selo: 8-Bics
Gênero: Pop Rock, Folk Rock
Para quem gosta de: Bruno Souto e Tim Bernardes
Ouça: Fica e Espelho
Nota: 8.5

Resenha: “Consertos em Geral”, Manoel Magalhães

Na imersão dos fones de ouvido, o tempo se comporta de forma diferente quando passeamos pelas canções de Consertos em Geral (2018, 8-Bics). É como espreitar por entre as brechas de um passado distante, reviver de forma nostálgica a experiências de uma época que não volta mais. Da minuciosa composição dos versos ao som harmonioso e limpo que escorre por entre as faixas, Manoel Magalhães faz de cada fragmento do primeiro álbum em carreira solo um objeto de merecido destaque, revelando ao público uma obra mágica.

Tamanho cuidado não vem por acaso. Dono de uma extensa seleção de obras partilhadas entre diferentes projetos da cena carioca, como Polar, Harmada e a extinta Columbia, na qual atuou como guitarrista e compositor, o músico fluminense transporta para dentro do presente disco parte da mesma atmosfera melódica e fina interpretação da música pop. São arranjos claramente ancoradas no folk-rock dos anos 1970 e 1980, como um resgate criativo de clássicos da música nacional e estrangeira.

Belchior encontra Wilco em uma noite triste, Almir Sater relembra antigas histórias de amor enquanto Maurício Pereira e Ryan Adams se apresentam juntos em uma estranha estação de rádio romântica. São quatro ou mais décadas de referências que acabam servindo de alicerce para a poesia confessional do músico. Um repertório enxuto, curto — apenas nove faixas —, porém, grandioso na forma como Magalhães detalha os próprios sentimentos de maneira honesta, sempre próxima do ouvinte.

Quem vai ser o próximo a te beijar / Em cada esquina ou bar / Em toda calçada? / Quem vai ser o último / A te levar pra casa? / Quem vai te respirar?“, questiona de forma angustiada na inaugural Fica. Uma lenta sobreposição de versos românticos que ainda serve de base para a faixa seguinte do disco, Espelho — “Quem vai dizer que foi engano / Te reencontrar na noite fria? / Quem duvidaria?“. Canções embaladas pela inserção de memórias tristes, medos ou mesmo reflexões pontuais, como em Tudo Que Não For Agora — “Não me interessa viver no amanhã / Não me interessa pensar / Em tudo o que não for agora“.

O mesmo esmero detalhado na formação dos versos acaba se refletindo na base instrumental que rege o disco. Exemplo disso está em Pra Gravar Na Sua Secretária Eletrônica, terceira composição do álbum. De essência brega, como uma canção esquecida de Odair José, a música de versos românticos (“Eu não te esqueci / Mas não foi por mal“) se espalha vagarosa, sem pressa, valorizando cada nota. Entre confissões intimistas, o piano elétrico se amarra às batidas e guitarras, servindo de passagem para o saxofone empoeirado que ganha forma nos instantes finais da música.

Parte expressiva dessa coerência nasce como resultado da forte colaboração entre o músico e o co-produtor de Consertos em Geral, o multi-instrumentista Clower Curtis. Do momento em que tem início, em Fica, até alcançar a derradeira Tudo Que Não For Agora, todos os os elementos do disco parecem pensados em comunhão, garantindo consistência ao álbum. Surgem ainda interferências pontuais, como a cantora Vivian Benford, além de um time seleto de instrumentistas que auxiliam no lento desvendar de ideias e temas melódicos orquestrados de forma explícita pelos sentimentos de Magalhães.

 


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend