"Cura"

Viratempo

Ano: 2018
Selo: Independente
Gênero: Dream Pop, Indie Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: Terno Rei, Monza e Mahmundi
Ouça: Se Eu Soubesse e Desatar os Nós
Nota: 8.2

Resenha: “Cura”, Viratempo

Não quero nada de novo / Pois nada é novo de fato / Nada é criado / Tudo é transformado“. O verso extraído de Fatos / Fotos, segunda música de Cura (2018, Independente), diz muito sobre a atmosfera nostálgica que orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução do primeiro álbum de estúdio do grupo paulistano Viratempo. Composições que flutuam entre passado e presente, conceito que se reflete não apenas na estrutura melódica e sintetizadores que recheiam o interior disco, mas, principalmente, no romantismo empoeirado que ganha forma e cresce no decorrer da obra.

Fuga declarada das ambientações acústicas que marcam o primeiro EP de inéditas da banda, lançado há dois anos, Cura se divide entre faixas de essência atmosférica e temas levemente dançantes, eletrônicos, como um diálogo com a música produzida na segunda metade dos anos 1980. Exemplo disso ecoa na sequência formada pela autointitulada faixa de abertura do disco e no pop referencial de Janela. Enquanto a primeira canção, uma parceria com o pernambucano Otto, transporta o ouvinte para o mesmo universo de artistas como Kravinsky e Chromatics, na composição seguinte, uma clara mudança de direção. Sintetizadores e guitarras que soam como um delicioso cruzamento entre o pop brega dos californianos da Toto com a obra de artistas como Os Paralamas do Sucesso e Neon Indian.

São colagens instrumentais que jogam com a experiência do ouvinte durante toda a execução da obra. Da bateria rápida que convida o ouvinte a dançar, em Se Eu Soubesse, passando pela ambientação entristecida de Floresça ou mesmo no dream pop romântico de O Quarto, bem-sucedido encontro com a cantora e compositora Gab Ferreira, cada elemento do disco parece transportar o som produzido pela banda para um novo território. Mesmo a curtinha Omoi, com seus poucos segundos de duração, brinca com a incerteza das fórmulas instrumentais, ruídos eletrônicos e vozes carregadas de efeitos.

Interessante notar que mesmo diverso musicalmente, Cura está longe de parecer um registro confuso. Parte dessa atmosfera homogênea sobrevive da profunda relação estabelecida entre os versos, em geral, consumidos pela melancolia de relacionamentos fracassados. “Num dia estranho eu era feliz / A vida era boa, então percebi / Que aquilo era um sonho / Apenas um sonho / Com falsas promessas / E uma lembrança“, cresce a dolorosa letra de Desatar os Nós, música de essência melancólica que acaba resumindo parte das experiências sentimentais compartilhadas pelos músicos Vallada (voz e sintetizadores), Hygor Miranda (baixo e voz), Dan Albuquerque (guitarra) e Max Leblanc (bateria).

Delírios poéticos que se espalham sem pressa, convidando o ouvinte a se perder em um território à meia luz, iluminado apenas pelo tremular nostálgico de luzes neon. Composições que mesmo radiantes na construção dos arranjos, como Aquarelar, sutilmente confessam versos embriagados pela dor. “Foi embora sem saber por que / Foi mais fácil do que tentar entender / Já não fazia mais sentido pra você / Me convencer que em algum dia tudo foi diferente“, canta em um claro exercício de profunda entrega, conceito que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Pra Me Lembrar (“Às vezes me esqueço / Que sou só mais um peso / Pra não te atrapalhar / Resolvi não ficar“).

Nítido ponto de transformação na carreira do grupo paulistano, Cura preserva a essência romântica dos antigos trabalhos da Viratempo, porém, parte de uma nova linha criativa. São três ou mais décadas de referências criativas que se dobram de forma a favorecer cada novo verso sutilmente espalhado pelo interior da obra. Composições que mesmo marcadas por desilusões amorosas, medos e conflitos intimistas de cada integrante da banda, dialogam de forma imediata com todo e qualquer ouvinte, efeito da profunda honestidade e lirismo agridoce que serve de sustento ao disco.

 


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