Resenha: “Curado”, Hurtmold & Paulo Santos

/ Por: Cleber Facchi 20/10/2016

Artista: Hurtmold & Paulo Santos
Gênero: Experimental, Instrumental, Alternativo
Acesse: https://www.facebook.com/hurtmold/

 

Não há espaço para o óbvio dentro da discografia do coletivo paulistano Hurtmold. Em quase duas décadas de carreira, os integrantes Maurício Takara, Guilherme Granado, Marcos Gerez, Mário Cappi, Fernando Cappi e Rogério Martins fizeram da colagem de referências, ruídos e paisagens instrumentais a base para a construção de uma seleção de obras marcadas pela complexidade e esmero na montagem de cada canção. Jazz, rock, noise ou apenas “experimental”. Um jogo de ideias, ritmos e referências que se projeta de forma essencialmente versátil dentro de Curado (2016, Sesc).  

Resultado da parceria entre o grupo paulistano e o veterano Paulo Santos, um dos integrantes do recém-extinto Uakti, coletivo mineiro de música de vanguarda, o trabalho de apenas dez faixas mostra o esforço de cada integrante na construção de uma obra completamente instável, imprevisível. Arranjos e batidas que dialogam com a sonoridade urbana da Hurtmold, porém, projetadas dentro do ambiente de fórmulas minimalistas e melodias geradas a partir de instrumentos sempre inusitados do “convidado”.

Da mesma forma que na extensa discografia do grupo mineiro, Santos transporta para dentro do presente álbum um pequeno arsenal de peças curiosas. São instrumentos criados a partir de tubos de PVC, encaixes metálicos e componentes gerados a partir de elementos coletados na natureza, caso de uma curiosa flauta de bambu. Componentes que ocupam um lugar de destaque no interior da obra, vide o saxtubo soturno que se espalha ao fundo da minuciosa Pastel de Pixo, segunda faixa do disco.  

Como a capa do disco parece indicar – trabalho que conta com a assinatura do guitarrista Mario Cappi, também responsável pela arte dos demais lançamentos da banda –, Curado é uma obra de possibilidades infinitas. Composições inicialmente contidas, econômicas, mas que acabam se fragmentando em diferentes atos, curvas e temas sempre complexos. Um bom exemplo disso está em Contas, música que cresce lentamente, cercada de vibrafones e outros instrumentos de percussão, dialogando com uma série de elementos do clássico Music for 18 Musicians (1978), de Steve Reich.

Sem pressa, o trabalho ainda abre espaço para a construção de faixas essencialmente densas, obscuras,  como uma extensão do material produzido para a obra-prima do quinteto, Mestro (2004). Um bom exemplo disso está na composição atmosférica de Yice. Em um intervalo de apenas quatro minutos, guitarras melancólicas se abraçam de forma a produzir uma melodia intimista, tocante, detalhando ao fundo da canção um universo de pequenos ruídos e sons percussivos assinados por Santos.

Construído a partir de diferentes retalhos instrumentais, Curado nasce como um registro parcialmente inédito a cada nova composição. São diferentes ritmos, experiências e timbres que colidem no interior da obra, como se diferentes histórias lentamente fossem contadas mesmo na ausência de palavras. O resultado de uma longa parceria que teve início ainda em 2008, durante uma passagem do coletivo pela cidade de Belo Horizonte, e que agora se materializa em cada uma das canções montadas para o registro.

 

Curado (2016, Sesc)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Mahmed, Constantina e Maquinas
Ouça: Pastel de Pixo, Contas e Yice

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.

Jornalista, criador do Música Instantânea e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.