"DAMN."

Ano: 2017
Selo: Top Dawg / Aftermath / Interscope
Gênero: Hip-Hop, Rap
Para quem gosta de: Kanye West, Jay-Z
Ouça: D.N.A., Humble
Nota: 9.3

Resenha: “DAMN.”, Kendrick Lamar

 

É fácil perceber a grandeza de To Pimp a Butterfly (2015) quando você tem uma coletânea como Untitled Unmastered (2016) entregue ao público como um simples “registro de sobras”. Clássico imediato, o terceiro álbum de estúdio do rapper Kendrick Lamar continua a reverberar em uma série de obras recentes. Um misto de jazz, soul e Hip-Hop, ponto de partida para a rima política e debates raciais sustentados em músicas como Alright, These Walls e The Blacker the Berry. Da abertura ao fechamento, um registro de impacto, mas que involuntariamente acaba levantando a questão: para onde vamos agora?

A resposta chega como um soco nas canções do quarto e mais recente álbum de estúdio do artista, o intenso DAMN. (2017, Top Dawg / Aftermath / Interscope). Produzido em um intervalo de poucos meses, oposto ao longo período de gestação que deu vida ao material de To Pimp a Butterfly, o presente registro de Lamar traz de volta a mesma flexibilidade dos arranjos, rimas e temas explorados durante a construção dos dois primeiros registros de estúdio do rapper, Section.80 (2011) e Good Kid, M.A.A.D City (2012).

Sem necessariamente fugir da temática racial explorada no disco anterior, conceito reforçado logo na inaugural D.N.A. (“Essa é a minha herança / Tudo o que sou, herança“), Lamar passeia por entre diferente personagens, cenários, temáticas e histórias de forma sempre provocativa, atual. São composições que mergulham em referências religiosos, caso de Pride, Humble e God, detalham o universo de excessos e o preço da fama, vide Lust, e ainda refletem sobre os principais tormentos existenciais do artista, marca da particular Feel (“Eu sinto que estou perdendo meu foco“).

Personagem central do própria obra, Lamar utiliza dos próprios conflutos como um precioso componente para a construção dos versos. Um bom exemplo disso está na produção da descritiva Fear. Violenta, a canção detalha a força perturbadora do medo em três diferentes fases da vida do rapper — aos 7, 17 e 27 anos. A mesma proposta confessional, por vezes intimista, acaba se refletindo em outros momentos do disco, caso da derradeira Duckworth. Um relato sobre como o fundador do selo Top Dawg Entertainment quase assassinou o pai de Lamar há poucos anos.

O mesmo conceito particular que orienta a composição dos versos acaba se refletindo na atmosfera melancólica que rege a base instrumental do disco. Da manipulação dos samples que apontam para o Hip-Hop dos anos 1990, passando pelo constante diálogo com o R&B, difícil ignorar a ambientação claustrofóbica que envolve e sufoca o ouvinte durante toda a execução do trabalho. Mesmo a interferência contida de convidados, caso do grupo irlandês U2 (XXX), a cantora Rihanna (Loyalty) e o novato Zacari (Love), acaba contribuindo para esse resultado. Bolsões de tristeza que se espalham durante toda a formação da obra.

Interessante perceber que mesmo consumido pela amargura dos versos e temas instrumentais, DAMN. em nenhum momento soa como um trabalho hermético, restrito. Pelo contrário, nunca antes um disco do artista pareceu tão acessível, comercialmente íntimo do grande público. Acompanhado de perto por nomes como BADBADNOTGOOD, Steven Lacy (The Internet), Mike Will Made It, James Blake, Thundercat e Kamasi Washington, Kendrick Lamar faz de cada faixa ao longo do álbum um precioso exercício criativo. Uma prova explícita de que para além do universo apresentado em To Pimp a Butterfly há muito a ser explorado pelo rapper.

 

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