"Deus é mulher"

Ano: 2018
Selo: Deck Disc
Gênero: Rock, Samba, MPB
Para quem gosta de: Metá Metá e Gal Costa
Ouça: Banho e O Que Se Cala
Nota: 9.0

Resenha: “Deus é mulher”, Elza Soares

Deus é mulher. O título forte, talvez provocativo para os mais conservadores, funciona como um poderoso indicativo da poesia política, crua e necessária que invade o novo álbum de estúdio de Elza Soares. Sequência ao material entregue no elogiado A Mulher No Fim do Mundo (2015) – primeiro registro de inéditas da cantora carioca –, o trabalho de 11 faixas amplia significativamente parte do universo detalhado pela artista há três anos. Um desvendar da alma feminina, debates sobre religião, o florescer da sexualidade e violência urbana.

Fuga declarada do samba torto incorporado ao álbum anterior, Deus é mulher se entrega ao rock não apenas na estrutura musical montada por Guilherme Kastrup, produtor do disco, em parceria com Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos, mas, principalmente, no discurso. Do momento em que tem início, em O que se cala, faixa composta por Douglas Germano, também responsável por Maria da Vila Matilde, até alcançar a derradeira Deus há de ser, Elza se projeta com ferocidade, revelando uma postura quase punk, anárquica.

Mil nações moldaram minha cara / Minha voz uso pra dizer o que se cala / Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala / O meu país é meu lugar de fala“, canta em tom raivoso, ainda que libertador, indicando a força imposta durante toda a execução da obra. Se antes Elza cantava sobre marginalizados (Benedita), mulheres em situação de violência (Maria da Vila Matilde) e o caos em um cenário pós-apocalíptico (Luz Vermelha), hoje ela parte para o ataque, fazendo com que a própria voz cresça de forma desmedida, até a última nota.

Eu quero dar pra você, mas eu não quero dizer / Você precisa saber ler / A linha da minha mão / Meus olhos na noite escura / A minha indecisão“, provoca em Eu Quero Comer Você, música de Alice Coutinho e Romulo Fróes, e uma clara reciclagem da poesia lasciva detalhada em Pra Fuder, do álbum anterior. A mesma vulnerabilidade e força do feminino se faz explícita em Banho, bem-sucedida criação de Tulipa Ruiz. “Acordo maré / Durmo cachoeira / Embaixo, sou doce / Em cima, salgada / Meu músculo-musgo / Me enche de areia / E fico limpeza debaixo da água“, canta enquanto tem início a inserção de vozes e percussão forte do Ilú Obá de Min, bloco paulistano formado apenas por mulheres.

São versos marcados pelo discurso social e provocações inteligentes, como se Elza apontasse para todas as direções. Do debate sobre intolerância religiosa, em Credo (“Credo, credo / Sai pra lá com essa doutrinação“) e Exu nas Escolas (“Presa em uma enciclopédia de ilusões bem selecionadas / E contadas só por quem vence / Pois acredito que até o próprio Cristo era um pouco mais crítico“), passando pela repressão e polarização da sociedade brasileira, em O Que Se Cala (“Pra que separar? / Pra que desunir? / Pra que só gritar? / Por que nunca ouvir?“), sobram rimas rápidas e certeiras.

O grande problema de Deus é mulher, assim como o trabalho que o antecede, continua sendo o limitado número de mulheres em uma obra que se apoia abertamente no discurso feminista. Das 11 faixas que recheiam o disco, apenas quatro contam com a assinatura de mulheres, porção também reduzida no grupo de instrumentistas convidadas a trabalhar na produção do álbum. Mesmo representado de forma incontestável pela imagem, histórico e voz forte de Elza Soares, não deixa de ser contraditório (e preocupante) pensar que músicas tão significativas como Deus há de ser e Dentro de Cada Um sejam compostas integralmente por homens.

 


3 thoughts on “Resenha: “Deus é mulher”, Elza Soares

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Send this to friend