"Devotion"

Ano: 2018
Selo: Domino
Gênero: R&B, Soul, Pop Alternativo
Para quem gosta de: Micachu e Jessy Lanza
Ouça: Go Now e Glady
Nota: 8.2

Resenha: “Devotion”, Tirzah

Quem for com sede ao pote talvez se decepcione com o material apresentado no primeiro álbum de estúdio da britânica Tirzah Mastin, Devotion (2018, Domino). Produto das experiências e sentimentos particulares da jovem artista, o trabalho de 11 faixas exige tempo até ser totalmente absorvido pelo ouvinte, efeito do completo minimalismo que orienta a composição dos arranjos e, principalmente, dos versos enevoados que se espalham do primeiro ao último instante da obra.

Concebido em parceria com a experiente Mica Levi (Micachu), amiga de infância e parceira de longa data da cantora, Devotion é, como tudo aquilo que Mastin vem produzindo desde o EP I’m Not Dancing, de 2013, uma obra entregue ao parcial experimento. Canções trabalhadas de forma a perverter grande parte dos clichês e elementos que tradicionalmente resumem gêneros como R&B, o soul inglês e, ainda que de forma contida, o pop em seu formato mais tradicional.

De fato, tão logo tem início, em Fine Again, a estreia de Mastin se projeta como uma antiga mixtape gravada em fita cassete, revelando versos apaixonados que se perdem em uma base de sons enevoados, corroída pelo tempo. Trata-se de uma fuga declarada de tudo aquilo que FKA Twigs, Jessie Ware e demais representantes da cena inglesa vêm produzindo nos últimos anos, como se Tirzah encolhesse a cada nova faixa do disco, jogando com a experiência do ouvinte de forma calculada.

Mesmo que parte desse atmosfera venha da forte interferência de Levi, são os sentimentos confessos e versos arrastados de Mastin que apontam a direção seguida ao longo da obra. Canções como a melancólica Glady, um R&B sujo à la Jessy Lanza, ou mesmo Go Now, possivelmente a faixa mais sensível do disco e o ápice de Devotion. Retalhos poéticos que refletem a construção de uma personagem romântica, ainda que essencialmente sofredora.

Claro que nem todas as músicas do disco seguem a mesma lógica. Exemplo disso está no pop eletrônico de Holding On, composição marcada pela força destacada das batidas, além, claro, da voz forte da cantora, crescente até o último verso. A própria faixa-título, mesmo contida, ganha força na breve interferência do convidado Coby Say, além, claro, da voz desmedida de Mastin, emulando uma versão lo-fi de Mariah Carey nos momentos de maior entrega da artista norte-americana.

Feito para ser apreciado aos poucos, sem pressa, Devotion oculta um mundo de pequenos detalhes que talvez passem despercebidos logo em uma primeira audição. Entretanto, a minúcia que rege o disco de forma alguma consegue disfarçar a forte similaridade entre as canções. Melodias abafadas e versos semi-declamados que dão voltas em torno de uma base cíclica, indicativo da completa estranheza e sensibilidade que acaba orientando de maneira torta a estreia de Tirzah.

 


One thought on “Resenha: “Devotion”, Tirzah

Comments are closed.