"Dirty Computer"

Ano: 2018
Selo: Wondaland / Bad Boy / Atlantic
Gênero: R&B, Pop, Hip-Hop, Soul
Para quem gosta de: SZA, Solange e Erykah Badu
Ouça: Make Me Feel, PYNK e I Like That
Nota: 8.5

Resenha: “Dirty Computer”, Janelle Monáe

A imagem robótica de Cindi Mayweather, personagem que vem sendo explorada por Janelle Monáe desde o primeiro trabalho de estúdio, o EP Metropolis: Suite I (The Chase) (2007), talvez sirva como um indicativo do rico conceito que abastece a obra da cantora e compositora norte-americana, entretanto, há muito parece sufocar a verdadeira identidade da artista. “O público não conhece Janelle Monáe, e eu senti que realmente não precisava ser ela porque eles estavam bem com Cindi“, explicou em entrevista ao The New York Times.

Entretanto, com a morte precoce do mentor e uma de suas principais referências criativas, o músico Prince (1958 – 2016), com quem vinha trabalhando em estúdio, Monáe se viu forçada a repensar diversos aspectos a própria carreira. “Eu não podia fingir ser vulnerável. Eu sabia que precisava fazer esse álbum, e adiei porque o assunto é Janelle Monáe“, respondeu. O resultado desse confesso desejo de mudança se reflete na honestidade dos versos em Dirty Computer (2018, Wondaland / Bad Boy / Atlantic), terceiro álbum de estúdio e o primeiro registro autoral desde que passou a se dedicar ao cinema – vide a presença em filmes como Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016) e Estrelas Além do Tempo (2016).

Parcialmente livre do universo metafórico, robôs e interpolações conceituais que marcam os antecessores The ArchAndroid (2010) e The Electric Lady (2013), Monáe entrega ao público uma obra em que trata a si mesma como principal componente criativo. “Às vezes um mistério, às vezes livre / Dependendo do meu humor ou da minha atitude / Às vezes eu quero sair ou ficar em casa / Andando em contradições, acho que sou real e ficção“, canta em I Like That, um reflexo da poesia intimista que invade o trabalho, sempre centrado nas angústias e inquietações da artista.

Para além de um simples exercício egóico, Dirty Computer nasce do completo desejo de Monáe, recém-assumida como pansexual, em explorar a própria sexualidade. Como indicado pela cantora, trata-se de “uma homenagem às mulheres e aos diferentes espectros da identidade sexual“. Exemplo disso está em PYNK, reencontro com a canadense Grimes – com quem havia colaborado em Venus Fly, do álbum Art Angeles (2015) –, e, “uma celebração impetuosa da criação. Amor próprio. Sexualidade. E o poder da buceta“, como resume no texto de apresentação da música.

 

 

O mesmo aspecto libertador dos versos se reflete na poesia provocativa de Make Me Feel. “Você me botou aqui, no seu bolso / Deitando seu corpo em um tapete felpudo / Você sabe que eu amo isso, então, por favor, não pare“, clama a voz lasciva de Monáe enquanto a base da canção emula a boa fase de Prince em Dirty Mind (1980) e Controversy (1981). A similaridade não vem por acaso. Foi o próprio músico que produziu o groove de sintetizadores da canção, indicando parte da sonoridade quente que ecoa em músicas como I Got The Juice, parceria com Pharrell Williams e, principalmente, Screwed, encontro musical com Zöe Kravitz.

Embora radiante, Dirty Computer em nenhum momento se esquiva de temas sérios, sempre tratados com sobriedade pela cantora. Do debate sobre empoderamento feminino e cerceamento dos direitos das mulheres negras, em Django Djane (“E nós vamos começar um motim da buceta“), passando pela repressão religiosa, na delicada So Afraid (“Enquanto eu sento no meu quarto escrevendo cartas para a minha igreja … Estou bem na minha concha / Tenho medo de tudo, medo de te amar“), faixa após faixa, Monáe se esquiva de possíveis alegorias para dialogar de forma explícita com o presente.

Dentro desse conceito, Dirty Computer se revela ao público como uma obra simples, proposta que naturalmente se esquiva do lirismo minucioso detalhado nos discos que o antecedem, porém, capaz de abraçar uma parcela ainda maior do público. De fato, poucas vezes antes Monáe pareceu tão próxima de um som comercial quanto no presente disco.

Salve exceções, como o encontro com Brian Wilson (The Beach Boys) na faixa-título, cada fragmento do disco parece trabalhado para grudar na cabeça do ouvinte, como uma versão reciclada das harmonias e vozes testadas em The Electric Lady. Basta ouvir músicas como Take a Byte, o soul nostálgico de Don’t Judge Me e Crazy, Classic, Life para perceber isso. Um claro exercício de se reapresentar ao público, brincando com ideias e temas originalmente testadas em outros projetos, conceito bastante similar ao trabalho de St. Vincent em Masseduction (2017).

Interessante notar que mesmo acessível, Dirty Computer em nenhum momento soa como uma obra rasa. Pelo contrário: Monáe parece pensar em cada elemento relacionado ao trabalho. Prova disso está no média-metragem que serve de complemento ao disco – Dirty Computer (Emotion Picture). Entre referências a David Bowie, Alejandro Jodorowsky e o sci-fi dos anos 1970, a colaboração com os diretores Andrew Donoho e Chuck Lightning que não apenas concentra grande parte dos clipes produzidos para o álbum, como entrega trechos inéditos de faixas como PYNK.

Da icônica imagem de capa, passando pela escolha do figurino ao completo refinamento da cantora a cada nova entrevista, Monáe se revela ao público como uma artista completa, em pleno domínio da própria obra e, ao mesmo tempo, ciente do impacto cultural que exerce.

 


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