"Dive"

Ano: 2017
Selo: PWR Records / Howlin' Records
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: In Venus e Lava Divers
Ouça: Dive e A Gente Não Consegue Terminar
Nota: 7.8

Resenha: “Dive”, Miêta

Guitarras embriagadas pelos ruídos, vozes submersas, sempre raivosas, instantes de pura aceleração, insanidade e caos. Em um intervalo de poucos minutos, a serenidade dos fones de ouvido é bruscamente rompida e invadida pela força das composições que abastecem o enérgico Dive (2017, PWR Records / Howlin’ Records), primeiro álbum de estúdio do grupo mineiro Miêta, projeto comandado pelos músicos Célia Regina (guitarra), Marcela Lopes (baixo, vocais), Bruna Vilela (guitarra) e Luiz Ramos (bateria).

Produto das experiências particulares e gravações caseiras do quarteto nos últimos meses – vide o resgate de faixas já conhecidas como Pet e Room –, o registro de apenas dez faixas e pouco mais de 40 minutos de duração segue em um ritmo frenético, urgente, até o último acorde da derradeira Solider Boys. Composições mergulhadas em relações confusas, crises existenciais e conflitos intimistas, como a passagem para um acervo poético tão íntimo do ouvinte quanto dos próprios integrantes da banda.

Exemplo disso está na faixa-título do disco. Entre versos sufocados pela melancolia de um relacionamento instável – “Mesmo sóbria, eu limpei feridas / Ignorada, fiquei por perto / Como um peixe / Mergulhando profundamente / Na sua saliva” –, guitarras maquiadas pelo uso de pequenas distorções conduzem o ouvinte em direção ao passado. Sobreposições climáticas que lembram a boa fase do Sonic Youth em clássicos como Goo (1990) e Dirty (1992), referência evidente durante toda a execução do trabalho.

Sétima faixa do disco, A Gente Não Consegue Terminar é outra que escancara sentimentos em meio a batidas rápidas e sobredoses de ruídos. “Eu me coloco em ponto morto pra observar você / E vez ou outra arroto os restos que esqueceu aqui“, entrega a letra da canção, como uma síntese dolorosa dos encontros e desencontros que liricamente conduzem grande parte da obra. Um labirinto sentimental que convida o ouvinte a se perder no interior de faixas como Math e Prejuízo, essa última, composição mais extensa e uma das mais complexas do disco.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo consumido pela dor, Dive em nenhum momento soa como uma obra arrastada. Pelo contrário, basta ouvir músicas como Pet para perceber isso. Um punk-surf-pegajoso no melhor estilo Downtown Boys e JJ, mas que acaba preservando a mesma poesia rica do quarteto mineiro. Segunda faixa do disco, Ages é outra que seduz pela força das guitarras e ruídos sujos, lembrando o Dinosaur Jr. em começo de carreira, porém, a todo instante sendo capaz de regressar ao núcleo central do álbum, sempre intimista, particular.

Raivoso, cru e deliciosamente sensível, Dive, como o próprio título indica, convida o ouvinte a mergulhar (e se perder) em um verdadeiro oceano de sensações. Por trás de cada composição detalhada pelo quarteto mineiro, histórias consumidas pela dor, declarações de amor, medos, angústias e versos sorumbáticos que se conectam diretamente ao turbilhão instrumental que orienta toda a construção do disco. Pequenas exposições sentimentais que conduzem o ouvinte de forma enérgica pelo interior da obra.

 

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