"Dona de Mim"

Ano: 2018
Selo: Warner Music
Gênero: R&B, Pop, Hip-Hop
Para quem gosta de: Pabllo Vittar e Gloria Groove
Ouça: Dona de Mim, Ginga e Saudade Daquilo
Nota: 7.5

Resenha: “Dona de Mim”, IZA

Sem pressa, Iza passou os últimos dois anos preparando o terreno para o lançamento do primeiro álbum de estúdio da carreira, Dona De Mim (2018, Warner Music). Produto das experiências e principais inspirações da cantora e compositora carioca, o trabalho de 14 faixas passeia por diferentes gêneros sem necessariamente parecer uma obra confusa. Canções ancoradas de maneira explícita no pop e R&B, porém, sutilmente perfumadas por variações rítmicas que vão do reggae à eletrônica, do trap ao uso de elementos típicos da música popular brasileira.

Claramente dividido em duas metades, Dona De Mim sustenta no primeiro bloco de canções um bem-sucedido diálogo da artista com diferentes nomes da cena nacional. Logo na abertura do disco, a quentura das batidas e rimas de Ginga, música compartilhada com o rapper paulistano Rincon Sapiência e um dos destaques da obra. Em Bateu, uma colagem ensolarada de ritmos que ressalta a participação de Ruxell, junto de Sérgio Santos, o principal produtor do disco. Batidas e versos que se espalham sem pressa, ponto de partida para a já conhecida Pesadão, encontro com Marcelo Falcão, ex-integrante d’O Rappa.

Das batidas e vozes rápidas que crescem em Corda Banda, colaboração com a baiana Ivete Sangalo, IZA abre passagem para o lado mais dançante do disco. Instantes em que a cantora carioca arrasta o ouvinte para as pistas sem grandes dificuldades. Exemplo disso ecoa com naturalidade em Rebola, quinta faixa do álbum. Concebida em parceria com Carlinhos Brown e Gloria Groove, a faixa parece brincar com a colagem de ritmos, conceito que volta a se repetir em É Noix, composição que se abre para a chegada de Tiaguinho.

Passada a série de encontros musicais, IZA confessa os próprios sentimentos em uma sequência de faixas marcadas pela doce melancolia do R&B. São canções guiadas pela saudade e confesso desejo do eu lírico, conceito reforçado com naturalidade em músicas como Saudade Daquilo. “Vou te falar a verdade / Madrugada bate a saudade / Quando estiver tranquilo, se lembra daquilo / Que é quase uma necessidade … O teu cheiro no meu travesseiro / Eu queria que fosse a realidade“, canta em meio a batidas lentas que lembram o trabalho de veteranas como Brandy e Monica.

O mesmo direcionamento acaba se refletindo de forma bastante similar em Você Não Vive Sem, composição que parece apontar para o final dos anos 1990, além, claro, de No Ponto, música guiada pela completa lascívia dos versos. Nada que se compare ao cuidado da cantora na montagem da faixa-título do disco. Da construção das batidas, reforçadas pela presença de Maffalda e Rodrigo Gorky, ao delicado uso dos versos, poucas composições recentes do pop nacional parecem emanar tamanha força. “Sempre dou o meu jeitinho / É bruto, mas é com carinho / Porque Deus me fez assim / Dona de mim“, canta enquanto a base da canção cresce aos poucos, valorizando cada nota lançada por IZA.

Obra de destaque em um ano de grandes lançamentos do gênero — como Não Para Não, de Pabllo Vittar, Alice, de Alice Caymmi e Ambulante, de Karol Conká —, Dona de Mim, como indicado no próprio título do trabalho, reflete a força e identidade criativa de IZA. Bem-servido cardápio de ideias, cada composição do disco parece pensada para capturar a atenção do ouvinte sem grandes dificuldades, proposta que se reflete tão logo o álbum tem início, na criativa sobreposição dos versos que invadem Ginga, e segue até o último instante da obra, na derradeira e forte Linha de Frente.