"Double Negative"

Ano: 2018
Selo: Sub Pop
Gênero: Indie, Slowcore e Pós-Rock
Para quem gosta de: Yo La Tengo e Red House Painters
Ouça: Disarray e Dancing and Fire
Nota: 8.6

Resenha: “Double Negative”, Low

Ouvir qualquer disco do Low está longe de parecer uma experiência aprazível. Pelo contrário, desde o início da carreira, quando o grupo norte-americano revelou ao público o primeiro álbum de estúdio, I Could Live in Hope (1994), versos consumidos pela dor e estruturas inexatas, sempre arrastados, vem sendo trabalhados de forma a estimular o que há de mais doloroso na alma e mente de qualquer ouvinte. Versos guiados pelo isolamento e permanente sentimento de angústia do eu lírico, ponto de partida para a série de registros que viriam a ser produzidos pelo grupo pelas próximas duas décadas.

Primeiro trabalho de inéditas da banda em três anos, Double Negative (2018, Sub Pop) não apenas preserva a essência melancólica e o aspecto torto que vem sendo explorado pelo casal Alan Sparhawk (guitarra e voz) e Mimi Parker (bateria e voz) desde o início da carreira, como perverte todo e qualquer direcionamento melódico em prol de um registro marcado pelo aspeto caótico dos elementos. Ruídos, vozes submersas, distorções e falhas que bagunçam na mesma medida em que parecem capazes de hipnotizar o ouvinte.

Talvez inacessível quando próximo de outros trabalhos recentes da banda, caso de C’mon (2011) e Ones and Sixes (2015), Double Negative parece capaz de “filtrar” parte expressiva dos ouvintes logo nos primeiros minutos, durante a sequência composta por Quorum e Dancing and Blood. São pouco menos de dez minutos em que vozes ecoadas se perdem em meio a incontáveis camadas de manipulação instrumental e guitarras carregadas de efeito. Bloco de ruídos que acabam servindo de passagem para um ambiente etéreo, sempre guiado de forma curiosa pela voz operística de Parker.

É justamente dentro desse estranho território criativo que reside a beleza de Double Negative. Perceba como cada composição do disco parece servir de base para a faixa seguinte, convidando o ouvinte a se perder em um ambiente tão sombrio quanto acolhedor. Parte desse resultado nasce da poesia melancólica que se espalha por entre as brechas do trabalho, confortando e dialogando com o ouvinte. São versos que refletem o afastamento natural entre os indivíduos, relacionamentos fracassados e depressão, proposta que vem sendo aprimorada pela banda desde o maduro Things We Lost in the Fire (2001).

Uma vez dentro do álbum, difícil escapar de músicas como Always Trying to Work It Out (“Eu te vi na mercearia, eu sei / Deveria ter dito ‘olá’ / Parecia que você estava com pressa / E não queria atrasar você então / Eu imaginei que deveria deixar você ir“) e Dancing and Fire (“É mais deixar sair do que deixar ir / Não é o fim, é apenas o fim da esperança“). Composições em que Sparhawk cria pequenos refúgios sentimentais em meio a versos consumidos pela dor, proposta que orienta a experiência do ouvinte até a trinca de encerramento do trabalho, composta por Poor Sucker, Rome (Always in the Dark) e, principalmente, Disarray. “Esse espírito maligno, cara, está me derrubando / Isso me diz para não fazer as coisas que eu deveria“, canta enquanto distorções e vozes cíclicas, sempre carregadas de efeito, crescem desmedidas, ocupando a última canção do álbum.

Mesmo no poucos momentos em que dialoga com o passado, como na melódica Dancing and Fire, camadas de ruídos sutilmente pervertem a ordem de leveza do disco, fazendo de Double Negative um trabalho que brinca com a experiência do ouvinte durante toda sua execução. Pouco menos de 50 minutos em que a banda — completa pelo baixista Steve Garrington e o produtor BJ Burton —, parece romper com todo e qualquer traço de previsibilidade, fazendo do álbum um experimento curioso, raro, mesmo dentro da extensa discografia montada pelo grupo norte-americano.

 


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