"Early Bird"

Ano: 2018
Selo: La Femme Qui Roule
Gênero: Indie, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Moons, Arthur Melo e Transmissor
Ouça: Ainda É Cedo e I've Been Waiting
Nota: 8.0

Resenha: “Early Bird”, Leonardo Marques

Mais conhecido pelo trabalho como produtor, o multi-instrumentista Leonardo Marques passou os últimos anos se revezando na execução de alguns dos registros mais significativos da presente safra da música mineira. Seja na sequência de obras assinadas de forma colaborativa com os parceiros da Transmissor, banda da qual faz parte, ou mesmo nos recentes álbuns de nomes como Moons, JP Cardoso, Nobat e Arthur Melo, sobram preciosidades sutilmente articuladas pelo artista belo-horizontino.

Dono de uma curta discografia em carreira solo — seleção que inclui os ótimos Noite e Dia no Mesmo Céu (2012) e Curvas, Lados, Linhas Tortas, Sujas e Discretas (2015) —, Marques entrega ao público o terceiro e mais completo registro de sua carreira. Trata-se de Early Bird (2018, La Femme Qui Roule), um exercício minucioso de apenas nove faixas em que o músico mineiro tece com delicadeza cada fragmento da obra. São vozes e melodias embriagadas pela nostalgia, como uma viagem instrumental que passeiam por diferentes décadas e campos da música brasileira.

Exemplo disso ecoa com naturalidade logo na abertura do disco, em The Girl From Bainema, uma bossa empoeirada, como uma criativa interpretação da obra de Tom Jobim. A mesma leveza se faz evidente nos arranjos e vozes cuidadosamente encaixadas em I’ve Been Waiting, balada entristecida que parece dialogar com o trabalho de estrangeiros como Tobias Jesso Jr. e Girls. Entalhes precisos que acabam servindo de passagem para a litorânea Dia Real de Um Sonho Comum, faixa em que afloram os versos em português, ponto forte do trabalho.

Em Não Te Escuto, quarta música do álbum, frações minimalistas e vozes doces estreitam a relação de Marques com os conterrâneos do Clube da Esquina. Um som ensolarado, leve, proposta que se estende até a faixa seguinte do disco, Sol Que Me Enfeita, música que se espalha em meio a arranjos econômicos, estrutura que se manifesta desde a abertura do disco, na já citada The Girl From Bainema. Instantes de profundo recolhimento e doce melancolia, conceito que se reflete com maior naturalidade em Ainda É Cedo, uma das principais faixas do disco.

Eu descobri que agora é cedo / Me disseram que ainda vai doer demais / Mesmo que eu não sinta mento / Já me disseram que o pior tá pra chegar“, canta enquanto a percussão ganha forma aos poucos, sem pressa, estímulo para a lenta inserção dos metais que correm em paralelo aos versos. Desse ambiente de orquestrações sutis, Marques abre passagem para a sequência composta por All The Herts e In Your Arms. Canções que se distanciam do restante da obra para emular o mesmo pop psicodélico de artistas como The Flaming Lips e Mercury Rev no final da década de 1990.

Com a chegada de Um Sopro, faixa de encerramento do disco, Marques se despede do trabalho de forma deliciosamente melancólica. São movimentos contidos que acabam se refletindo na composição das batidas e vozes submersas, como uma extensão natural de tudo aquilo que o músico vem desenvolvendo desde os primeiros minutos da obra. Frações instrumentais e poéticas que se revelam ao público em pequenas doses, como um convite a se perder (e flutuar) em um universo próprio do artista mineiro.